O que a OCDE ainda não conseguiu dizer sobre os incêndios em Portugal
O relatório final chega quase ao ponto. Depois pára, e deixa de fora o eucalipto, a celulose e a monocultura que fabricou a paisagem que arde.
A OCDE publicou esta semana o seu relatório final sobre a gestão dos fogos rurais em Portugal. “Rumo a um quadro integrado de gestão dos fogos rurais em Portugal” que fecha um projecto de dois anos com financiamento europeu. O Expresso saiu com a manchete que resume bem o teor do documento: “Sucesso no combate aos fogos pequenos está na origem dos grandes incêndios em Portugal.”

Há anos que escrevo sobre a mesma ideia, que Portugal desenhou a sua paisagem como um corpo em stress crónico, que a floresta empobrecida fabrica o seu próprio fogo, que a retenção de humidade no solo é a única verdadeira prevenção à escala climática que aí vem. E aqui, num documento assinado pela OCDE, aparecem frases que não me fazem sentir mais acompanhado.
O paradoxo
O relatório diz coisas importantes. Num parágrafo quase clínico do segundo capítulo, a OCDE descreve o sistema pré-2017 como uma abordagem fragmentada onde “a prevenção foi subvalorizada e o financiamento e os recursos concentraram-se principalmente na resposta de emergência e no combate ao fogo. Este desequilíbrio entre prevenção e resposta criou um paradoxo do fogo: as reduções de curto prazo na área ardida através da supressão permitiram a acumulação de combustível, aumentando a severidade dos fogos futuros.”
É literalmente isto. A OCDE chama-lhe fire paradox e assume-o como explicação estrutural. O sucesso no combate dos pequenos fogos está na origem dos grandes. Apagar fogo acumula fogo. É uma inversão tão radical do senso comum português e que contradiz décadas de discurso oficial sobre bombeiros, canadair´s e dispositivos.
O documento é ainda mais duro quando analisa os números. Em 2024, trinta e cinco fogos com mais de 500 hectares foram responsáveis por 84% de toda a área ardida. O Verão de 2025 ultrapassou 2017. Oito anos de reformas, duplicação do orçamento público dedicado à gestão do fogo e a pergunta inevitável: se o sistema funciona, porque é que arde cada vez mais?
A resposta que a OCDE dá é institucional. Falta coordenação entre forças, falta clareza de cadeia de comando, faltam dados de perdas e danos, falta monitorização de resultados em vez de actividades. Todas estas respostas são insípidas. Nenhuma delas é suficiente.
O que o relatório recomenda mas com timidez
É no capítulo terceiro que o relatório começa a roçar a tese que venho a defender embora sem lhe tocar inteiramente. A OCDE escreve que Portugal precisa de “um maior uso de abordagens baseadas na paisagem e na natureza que lidem com a continuidade do combustível em escalas espaciais mais amplas. Isto inclui mosaicos estratégicos que combinam diferentes usos do solo e tipos de vegetação, tais como vegetação nativa e folhosa, para reduzir a intensidade e a propagação do fogo.”
Leia-se esta frase com atenção. Mosaicos estratégicos. Diferentes tipos de vegetação. Espécies nativas. Folhosas. A OCDE está a descrever, em linguagem técnica e sóbria, o mesmo organismo vivo que venho a divulgar com outras palavras e sem o peso de representar uma organização.
A estratificação vertical e as fases de sucessão ecológica fazem parte da dinâmica intrínseca das florestas naturais. São o padrão que a floresta segue ao reconstituir-se, em qualquer latitude. Sistemas agroflorestais sucessionais indígenas, praticados em diferentes partes do mundo sob nomes distintos ou sem nome nenhum, revelam uma capacidade consistente de observação e intuição para espelhar os processos da floresta local.

A Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsch sistematizou este saber, nomeou as fases, articulou os estratos, e tornou o processo replicável como prática agrícola consciente e universal.
O princípio de que uma floresta diversificada e estratificada arrefece o ar, condensa humidade, fixa carbono no solo e recusa-se a arder com a violência com que arde hoje.
A recomendação técnica está lá. O diagnóstico está lá. Falta o passo seguinte, aquele que um relatório institucional, financiado pela União Europeia, provavelmente não pode dar. Falta nomear o que precisa de ser substituído.
As palavras que não aparecem
Fiz o exercício que qualquer leitor pode fazer. Procurei no documento, palavra por palavra, os termos que definem a paisagem portuguesa real.
Eucalipto: zero ocorrências. Eucalyptus em inglês: zero. Pinheiro ou pine: zero. Celulose ou pulp: zero. Monocultura ou monoculture: zero. Biomassa como fonte energética industrial: nenhuma menção substantiva. Navigator, Altri e as empresas que ocupam centenas de milhares de hectares de território nacional: não existem no documento.
Este silêncio é indubitavelmente político. A OCDE descreve a floresta portuguesa através de abstracções: fragmented private forest ownership, unmanaged fire-prone vegetation, fuel accumulation, land abandonment. A composição concreta do bosque que arde, aquilo que lá está plantado e quem o plantou, fica fora do quadro. É como escrever um relatório sobre obesidade infantil sem nunca mencionar a indústria dos refrigerantes.

A consequência desta abstracção importa. Quando o relatório diz que Portugal tem combustível acumulado por causa do abandono rural, está a dizer uma meia verdade. A outra metade, a que a OCDE não escreve, é que o abandono rural aconteceu sobre uma paisagem que foi deliberadamente convertida em monocultura industrial desde os anos cinquenta, primeiro pelo Estado Novo e depois pelo mercado, e que essa conversão é hoje o principal factor de inflamabilidade do território. O solo seco, o dossel uniforme, os corredores de vento, a ausência de estratos intermédios, tudo isto tem origem na plantação industrial que ocupou as aldeias antes ou depois de as pessoas as deixarem. Não na saída das pessoas em si.
A Figura 5 como confissão
Há um momento em que o relatório se aproxima perigosamente do que não se costuma falar. É na página 28, na Figura 5, onde a OCDE cruza três mapas de Portugal continental. Um mostra os territórios vulneráveis ao fogo. Outro mostra as áreas ardidas entre 2010 e 2019. O terceiro mostra a distribuição dos fundos da Política Agrícola Comum.
Os três mapas dizem a mesma coisa de ângulos diferentes. Os territórios mais vulneráveis e mais ardidos estão concentrados no interior norte e centro. Os fundos da PAC, que deveriam apoiar a gestão rural, concentram-se no litoral e no sul, onde arde menos e onde a agricultura é mais intensiva. A OCDE cita Viegas, Batista e Cordovil para escrever que “os recursos foram desproporcionadamente direccionados para as regiões mais prósperas do país, negligenciando áreas mais vulneráveis com maior cobertura florestal e maior risco de incêndio.”
A leitura imediata é desconfortável. Traduzindo do relatorês: o Estado, através dos fundos europeus que canaliza, financia a agricultura intensiva nos sítios onde não arde, e abandona financeiramente os sítios onde arde. Mas esta tradução, se pararmos aqui, fica curta. Sugere que bastaria redireccionar o dinheiro para os sítios certos e o problema resolver-se-ia. Não se resolveria, porque o problema não é de geografia mas do destino do próprio dinheiro.
Escrevi há pouco tempo um texto que é, retrospectivamente, o complemento necessário a esta Figura 5. Chamei-lhe “Nova Agricultura, Desertificar com Subsídios” e documentei, a partir da minha própria experiência como antigo beneficiário de fundos de jovem agricultor, o que acontece ao território quando os apoios chegam. Linhas, telas plásticas, tubos de gota-a-gota como cabos de uma linha de montagem. Mosaicos de mirtilo, framboesa, abacate, pistácio, olival super intensivo, uva de mesa, que mudam de cultura a cada moda mas repetem sempre o mesmo método: muito investimento à cabeça, muita química, um selo no fim para sossegar as consciências.
Quando a PAC chega, mesmo em modo biológico, é isto que financia. Não financia mosaicos estratificados nem floresta sucessional mas sim fichas técnicas, cadernos de encargos e infra-estrutura plástica que ao fim de cinco, dez, quinze anos deixa de ter utilidade e passa a ter destino incerto. Financia a desertificação química de solos que deveriam condensar humidade e acaba por produzir, à sua maneira, territórios tão frágeis ao fogo e à seca quanto a monocultura florestal que ocupa o outro Portugal.
A Figura 5, lida com esta camada por cima, diz uma coisa muito mais dura do que parece. Diz que o território está partido em duas zonas geridas pela mesma lógica extractiva, com etiquetas financeiras diferentes. Numa, a PAC paga para converter solo vivo em substrato plastificado ao serviço de cadeias alimentares longas que exportam valor e deixam cá o passivo. Noutra, a ausência desses fundos entrega o território à monocultura florestal industrial, produção em série, rotatividade forçada, combustão cíclica.
Onde a OCDE vê um problema de distribuição, há na verdade um problema de destino dos próprios fundos. A PAC, como está construída, não consegue financiar o que o relatório noutra página pede: paisagens estratificadas, vegetação nativa, gestão baseada na natureza. A grelha de apoios não recebe candidaturas de sucessão sintrópica. Recebe projectos de mirtilo em tela plástica e de oliveiras em compasso apertado. E quem desenha projectos sabe-o, porque é esse desenho que acelera a execução da verba.
Os sítios onde arde foram, em boa parte, aqueles onde o próprio Estado plantou ou incentivou a plantação da monocultura que hoje alimenta as chamas. Os sítios onde não arde são aqueles onde o dinheiro público paga hoje uma agricultura que está a fabricar a próxima crise: solos exaustos, água desviada, plástico a degradar-se em micropartículas, trabalho migrante pago ao quilo e à peça.
Duas paisagens, uma lógica. A política florestal e a política agrícola portuguesas das últimas sete décadas funcionam como duas máquinas coordenadas: uma desenhada para produzir combustível inflamável, outra desenhada para produzir terreno desertificado. A máquina financeira que as alimenta é a mesma.
Falta apenas juntar os pontos, e aceitar que o problema não se resolve com mais fundos bem distribuídos. Resolve-se mudando aquilo que os fundos podem financiar.
Duas ideias de gestão
A palavra management, gestão, aparece centenas de vezes no documento. É o eixo em torno do qual giram todas as recomendações. Gestão integrada, gestão de combustível, gestão de risco, planos de gestão, Agência para a Gestão.
Há aqui um problema semântico que importa abrir. Quando a OCDE fala de gestão, fala de um conjunto de operações técnicas e regulatórias feitas sobre a floresta: inspecções, faixas de combustível, queimadas prescritas, cadastro, planos municipais, coimas. A floresta é o objecto, o gestor é o Estado ou o proprietário, e a gestão é o que se faz à floresta para a disciplinar.
Quando falo de gestão, e quando Ernst Götsch, Ana Maria Primavesi ou Gonçalo Ribeiro Telles falavam de gestão, estamos a falar de outra coisa. De acompanhar uma floresta que se gere sozinha há centenas de milhões de anos, ajudando-a a recuperar processos que nós próprios interrompemos. De deixar que as fases de sucessão avancem, colonização, acumulação, abundância, e intervir para acelerar o movimento em vez de o travar. De ler o solo, e não de o domar. Primavesi dizia-o em poucas palavras, o homem é o que o solo faz dele, e só um solo vivo pode fazer gente viva. Ribeiro Telles, na sua entrevista à Revista Visão em 2003 que continua a parecer escrita hoje, era ainda mais direto: a limpeza da floresta é um mito, o que importa é garantir a circulação da água e da matéria orgânica para melhorar a capacidade de retenção do solo, dentro do mosaico mediterrânico onde agricultura, pecuária, matos e mata coexistem.


A diferença entre as duas ideias de gestão parece filosófica e é prática. Uma gere para produzir, a outra gere para regenerar. Uma calcula metas de limpeza em hectares por ano, a outra mede sucesso em espessura de húmus e em espécies de fungos. Uma vê biomassa acumulada como risco, a outra vê biomassa acumulada como investimento no futuro. A OCDE está, no limite do que um relatório seu consegue dizer, a sugerir a segunda. Mas escreve-a no vocabulário da primeira, e é isso que a trava.
O que seria preciso dizer a seguir
Se tivesse de continuar o relatório onde a OCDE parou, remataria com quatro pontos.
Primeiro, a paisagem que arde foi fabricada. O Estado Novo plantou a utopia da pasta de papel, o mercado consolidou-a, a União Europeia pagou para a manter. Oitocentos mil hectares de eucalipto são opção política.
Segundo, a recomendação sobre mosaicos estratificados só vale se vier acompanhada da decisão inversa à que vigora: fechar a torneira da plantação industrial e redireccionar os subsídios, com transição justa para quem hoje vive dela.
Terceiro, a humidade retida no solo é a única protecção real à escala climática que aí vem, e só aparece quando a floresta é acompanhada como organismo. Um centímetro de húmus é mais necessária que um avião de combate às chamas.
Quarto, o problema é de coragem institucional antes de ser de ciência. A ciência está feita, em parte dentro do próprio relatório. Falta quem pague o custo de contrariar a indústria que captura metade do território.
A OCDE chegou mais perto do que alguma vez tinha chegado, mas parou à porta do essencial. Entre o que diz e o que falta dizer, fica-nos o tempo que sobra para escrever, ler, discutir, pressionar e, sobretudo, plantar de outra maneira. Porque enquanto um relatório de quarenta e seis páginas evita nomear o eucalipto, o eucalipto continua a crescer. E a arder.
Fontes e leituras complementares:
Towards an integrated rural fire management framework in Portugal, OECD Environment Policy Paper No. 49, abril de 2026. Disponível em acesso aberto no site da OCDE.
Viegas, M., Batista, P. e Cordovil, F. (2023), “The Portuguese forest and the Common Agricultural Policy”, Landscape Ecology.
Artigos anteriores neste site: “Voltar às Raízes, Renascer em vez de Arder”, “Monocultura de Árvores, Ligação Fatal entre falta de Biodiversidade e Fogos Florestais”, “Portugal incendiário, o problema começa no chão”, “Nova Agricultura, Desertificar com Subsídios”.





Como sempre, teus textos são um prazer de ler, uma clareza de demonstrar e deixam aquela sensação de dar graças por não estar só e, se por vezes pode parecer loucura, ao menos o prazer de não ser o único. Obrigado por mais esse texto, que vem sempre acompanhado do sonho e desejo de um dia encontrar-te pessoalmente. Força e continuidade... tua voz é um benefício e uma renovação em meio à esterilidade de ideias que assola o país