Voltar às Raízes – Renascer em Vez de Arder
Um retrato da falsa “gestão florestal” e da urgência de devolver protagonismo ao ecossistema
Por: Ricardo Meireles
E se tivéssemos coragem?
E se tivéssemos mesmo coragem?
Coragem de, enquanto país, abdicar de uma riqueza que vem da destruição?
De dizer que não queremos mais converter montes inteiros em papel higiénico e caixas de cartão?
E se, como povo, ousássemos desligar a máquina que alimenta a monocultura de árvores de crescimento rápido (eucalipto, pinheiro, acácia) essa mesma máquina que nos deixou sem sombra, sem água e sem memória?
Pode parecer um gesto radical. Mas o radical, neste momento, é continuar como estamos. Continuar a justificar o injustificável: uma economia assente na exploração de um ativo que arde todos os verões, seca os solos e desertifica o território. Uma indústria que, a troco de 1,5% do PIB, converte a floresta num rastilho. A que preço é que isso se paga?
A indústria da celulose em Portugal é frequentemente apresentada como um caso de sucesso. Mas a que custo se constrói um “sucesso” que exige 800 mil hectares de eucalipto e mais de um milhão de hectares de plantações industriais inflamáveis? Que sucesso é esse que transforma a paisagem numa monocultura vertical, onde só uma espécie prospera e tudo o resto morre em silêncio?
Não se trata apenas de uma decisão económica, é uma escolha civilizacional.
Queremos continuar a extrair como se os montes fossem minas de madeira?
Ou queremos começar a regenerar?
A utopia salazarista da pasta de papel
A industrialização da floresta não nasceu por acaso.
A transformação da celulose em desígnio nacional foi um produto direto do Estado Novo. Uma visão autoritária de planeamento territorial onde cada monte deveria ter utilidade económica mensurável. A política florestal de Salazar era simples: reflorestar o país com árvores “úteis”, controlar o território, criar riqueza para o Estado.
Eucaliptos e pinheiros foram plantados aos milhões.
A indústria da pasta de papel foi promovida como símbolo de modernidade industrial e independência económica. Em 1953, o Estado fundou a Companhia Portuguesa de Celulose. Em 1957, Portugal tornava-se pioneiro mundial na produção de pasta de papel.
Mas essa utopia ardeu.
A paisagem que Salazar semeou transformou-se num arquipélago de floresta combustível. Os “campos de produção florestal” tornaram-se desertos ecológicos.
Hoje, herdamos o peso dessa política: um país com um dos mais altos índices de área ardida da Europa, com comunidades sitiadas pelo medo do fogo e com uma floresta desprovida de função ecológica.
Está na altura de apagarmos de vez essa ideia do mapa.

A memória que ardeu connosco
Somos um povo sem memória ecológica.
Pergunta a qualquer português como era a paisagem há 150 anos, ninguém saberá responder. Ou mesmo há 50. A maior parte dirá que era “parecida”. Mas não era.
O que temos hoje não é floresta. É uma cicatriz com ramos. Uma repetição industrial de espécies inflamáveis. Aquilo que chamamos hoje “monte” não é o que lá estava. É o que sobrou depois de séculos de extração.
Provavelmente, a destruição florestal em Portugal começou quando a nossa expansão começou.
A glória dos Descobrimentos teve um preço oculto: madeira. Navios, estaleiros, cais, tonéis, mastros, caixas, construção e mobiliário das casas dos fidalgos. A frota portuguesa não navegava a vento – navegava a árvores.
Eram necessários milhares de carvalhos, castanheiros, sobreiros e pinheiros para construir cada nau, cada caravela, cada fragata.
E foram muitos. Estima-se que entre os séculos XV e XVIII, foram construídos entre 4 a 6 mil grandes navios para sustentar a presença naval portuguesa nos quatro cantos do mundo. Cada um deles representava a morte de florestas inteiras.
Se queremos honestidade histórica, temos de assumir: a madeira já era um recurso estratégico desde o primeiro império.
E desde então, temos tratado o ecossistema como armazém.
Mas hoje, ironicamente, celebramos a natureza como se fosse algo exótico.
Criamos resorts em desertos. Tiramos selfies em sobreirais esparsos. Publicamos fotos de “retiros na natureza” em zonas que já foram matas densas, húmidas e vibrantes — e que hoje são o oposto.
Estamos tão afastados da nossa floresta que achamos natural que o “campo” seja poeira, ervas secas e eucaliptos ralos.
Mas não é só o campo que está doente. Somos nós que perdemos a referência.
O fogo e a amnésia
O fogo arrancou-nos do nosso lugar natural.
E não estou a falar apenas do fogo dos noticiários. Estou a falar do fogo civilizacional, o que abrimos nas clareiras há 4 a 6 mil anos atrás, quando começámos a usar queimadas para criar pasto para o gado.
A primeira gestão florestal feita com lume.
A partir daí, deixámos de ser uma espécie do contexto da floresta e tornámo-nos administradores da clareira.
E quanto mais clareiras criávamos, mais esquecíamos o que era uma floresta verdadeira. Hoje, já nem sabemos onde pertencemos no labirinto da sucessão ecológica. Durante 200 mil anos, vivemos como parte da dinâmica florestal. A agricultura e a pastorícia, ao imporem a domesticação da paisagem, cortaram esse vínculo.
E depois criámos o conceito de “gestão florestal”. Mas que gestão é essa que empobrece os solos, seca os montes e alimenta o fogo?
Se “gerir” significa impedir a floresta de fazer o seu trabalho, então não estamos a gerir, estamos a sabotar.

O que aconteceria se parássemos já hoje?
E se, já amanhã, disséssemos: não sai mais uma árvore para a indústria da celulose?
Não mais uma tora para alimentar as caldeiras de Cacia, de Setúbal, de Figueira da Foz.
E se a madeira voltasse a ser árvore, depois chão e depois húmus?
Parece utópico. Mas olhemos os números com frieza.
A indústria da celulose e da biomassa representa hoje cerca de 1,3 a 1,5% do PIB nacional. Gera cerca de 3 mil milhões de euros em exportações por ano. Emprega diretamente 13 mil pessoas e sustenta dezenas de milhares de postos de trabalho indiretos. É um setor estratégico, dizem. Mas também é um setor que queimada após queimada, ano após ano, verão após verão, está a comer o futuro.
E o mais irónico é que essa riqueza é baseada em produtos de baixo valor acrescentado: papel de escritório, cartão de embalagem, pellets para queimar em centrais elétricas.
Trabalhamos para alimentar um ciclo de extração que tem o seu lucro fora, e o seu custo cá dentro. Cortamos árvores que nos dariam sombra e água, transformamo-as em celulose, exportamos o produto, e depois usamos parte desse dinheiro para apagar incêndios, subsidiar plantações e reconstruir casas ardidas.
Estamos a pagar para sermos explorados.
É como se o resto do mundo nos propusesse usar os nossos montes, a nossa água e a nossa biodiversidade, a troco de alguns euros, para fabricar subprodutos da pasta de celulose. Para quê destruir os seus próprios países, se há um país disposto a vender a sua qualidade de vida em troca disso? Um negócio onde o lucro é imediato para alguns, mas o prejuízo é permanente para todos.

Um plano de saída com cabeça e raízes
Se tivermos coragem, o plano está à vista. Cortar, sim. Mas cortar com a celulose.
Não sai mais uma árvore para esse fim.
O Estado deve assumir responsabilidade histórica: nacionalizar não só os ativos industriais, mas também toda a matéria-prima florestal plantada diretamente pela própria indústria de celulose. Para causar o menor impacto possível nas pessoas ou famílias que contavam com rendimento proveniente da sua floresta nos próximos anos, o Estado deveria garantir compensações justas, sob a forma de um subsídio pontual, que permita a transição económica e o redirecionamento da gestão dessas áreas para modelos regenerativos. Assim, o passivo ecológico transforma-se num ativo vivo e produtivo para o futuro.
A partir de agora, as árvores que caem ficam. Os ramos que sobram apodrecem. O chão começa a reciclar-se. Sempre que possível, e de forma comunitária, podemos usar a energia e os meios disponíveis para triturar esse material e acelerar a decomposição. Quando isso não for viável, o parceiro Ecossistema encarregar-se-á do processo, mais lento, mas também mais sábio.
Iniciamos uma gestão agroecológica dos montes em parceria com o bioma:
Eliminação inicial do excesso de copas altas que bloqueiam a luz e impedem a estratificação.
Recuperação acelerada pela agrofloresta de sucessão: em vez de esperar que a natureza siga o seu curso durante séculos, aplicamos princípios da agricultura sintrópica para acelerar o processo. Organizamos espécies pioneiras, secundárias e clímax em diferentes estratos, herbáceo, arbustivo, arvoredo baixo e emergente, de forma a replicar e potenciar o funcionamento de uma floresta madura. As pioneiras criam sombra e biomassa; as secundárias e clímax vão consolidando a estrutura. Cada poda e queda de matéria orgânica alimenta o solo, equilibra a relação carbono/azoto e enriquece o sistema em minerais essenciais. Resultado: mais fotossíntese, mais retenção de água, arrefecimento do microclima e um ciclo regenerativo contínuo.
Introdução e gestão consciente de espécies — privilegiando nativas sempre que possível, mas reconhecendo também o papel que algumas exóticas de crescimento rápido podem ter como aliadas temporárias na regeneração como por exemplo, e porque não, o próprio eucalipto, uma máquina de regeneração quando incorporada numa floresta biodiversa. Nada de viveiros de plástico: opta-se por sementes, processos naturais e simbiose com a fauna e o solo. Em contextos de solo muito degradado, estas espécies pioneiras ajudam a cobrir o solo, acumular biomassa, atrair fauna e criar micro climas, preparando as condições para a instalação e crescimento das nativas de ciclo mais longo. No contexto português, exemplos como a Acacia dealbata (mimosa), apesar de classificada como invasora, podem desempenhar um papel inicial na fixação de azoto, estabilização de taludes e proteção contra erosão em áreas queimadas, desde que manejadas de forma intencional e transitória. Na lógica sintrópica, cada espécie cumpre uma função no tempo e no espaço: a chave é saber quando deixá-la entrar… e quando é hora de deixá-la sair.
Mudança da legislação florestal — Hoje, o homem é visto como um intruso.
Precisamos de integrá-lo na floresta — não como dono, mas como coabitante, como catalisador da vida. A legislação deve permitir zonas de uso misto, gestão comunitária, agroflorestas, silvopastorícia, recolha de alimentos e saberes tradicionais.
O espaço rural não precisa ser apenas guardião de memórias e práticas antigas: pode e deve ser também um lugar vibrante, eclético, com a mesma diversidade cultural, social e económica que tantas vezes associamos às cidades. A diversidade não deve ser um privilégio urbano — pode florescer igualmente entre campos, rios e montes, criando comunidades mais ricas, criativas e resilientes.
Temos de deixar de tratar a floresta como um talhão de produção e começar a vê-la como um organismo vivo onde também pertencemos.




Quando deixarmos de gerir a floresta como se ela fosse uma fábrica?
Quando deixarmos de gerir a floresta como se fosse uma fábrica, abriremos espaço para um novo paradigma. Em vez de planilhas de Excel e gráficos de produtividade, passaremos a co-gerir com o próprio ecossistema, ajudando-o a lembrar-se de como se faz floresta. Nos primeiros cinco a dez anos, começará uma grande transição: o mato voltará a crescer onde antes era proibido, as árvores deixarão de ser todas iguais e os solos, antes dominados pelas raízes superficiais de eucalipto e pinheiro, iniciarão um novo ciclo de vida orgânica. Folhas caídas, ramos a apodrecer e troncos que já não saem em camiões alimentarão um solo faminto há décadas. Ao deixar o chão respirar e o ciclo fechar, a floresta começa a evoluir: solo mais rico gera mais biodiversidade, que cria mais estratificação, que gera microclimas, mais fotossíntese, mais humidade e menos inflamabilidade.
Nos estágios iniciais dessa regeneração, é natural que predominem espécies adaptadas a solos pobres e ciclos rápidos de acumulação de carbono — muitas vezes resinosas, inflamáveis e propensas a arder. Essa é a estratégia que lhes permite colonizar depressa áreas degradadas. Mas, à medida que a sucessão avança e o solo se enriquece, essas espécies perdem protagonismo, cedendo lugar a formações mais densas, húmidas e menos inflamáveis, próprias de ecossistemas em regime de abundância.
Em 25 anos, o processo de regeneração estará em pleno curso. As florestas serão mais densas e estratificadas, com várias camadas — herbáceas, arbustos, arvoretas e emergentes —, em vez de uma copa uniforme como num eucaliptal. Cumprirão múltiplas funções: produzir alimentos, oferecer abrigo à fauna, fixar carbono e regular a temperatura. Serão silenciosas para a indústria, mas generosas para a vida.
Ao fim de meio século, a revolução estará completa. Paisagens que multiplicam a taxa de fotossíntese funcionarão como mecanismos naturais de resfriamento, retirando calor do ambiente e aumentando a humidade. A estrutura densa e estratificada agirá como uma esponja, impedindo a evaporação rápida da água, condensando orvalho, infiltrando e armazenando mais do que se perde. Em plena crise climática, Portugal poderia assim reconstruir um clima local mais fresco, mais húmido e mais resiliente, tornando-se um dos poucos países do Sul da Europa a inverter a desertificação. Tudo isto apenas por deixarmos de tratar a floresta como matéria-prima e abandonarmos um modelo de “gestão florestal” que, hoje, nada mais é do que manutenção da estrutura industrial.
Um país que floresce em vez de arder
Chegados aqui, a pergunta já não é “se é possível”.
A pergunta é: porque é que ainda não começámos?
Já fomos capazes navegar para o desconhecido, desenhar mapas com olhos postos nas estrelas, cultivar vinhas em encostas de xisto. Fomos pioneiros em tanto. E agora, num tempo em que a floresta grita, arde, seca e colapsa, temos diante de nós uma nova fronteira: não conquistar territórios, mas regenerá-los.
A floresta não precisa de nós para existir, mas precisa que saiamos da frente para voltar a ser como era. E precisa, também, que estejamos lá, não para impor uma gestão centrada em nós, mas para facilitar o seu caminho até à abundância.
Para sermos, finalmente, um elemento consciente dentro da sucessão ecológica.
Temos de ter coragem de apagar do mapa a indústria da celulose e da biomassa.
De dizer: já chega. De reconhecer que aquele modelo ardeu, não só no literal, mas no ético, no ecológico e no económico.
Precisamos de um plano que pare de medir sucesso em toneladas exportadas e comece a medi-lo em rios e regatos com água, solos com fungos, matas com sombra, aldeias sem medo. Um plano onde o PIB não cresce à custa da saúde dos ecossistemas, mas sim como consequência da sua abundância.
Este é um apelo à coragem. De virar costas ao “curto-prazismo”, de reconhecer que a floresta não é nossa, mas que nós podemos ser dela.
E se Portugal fosse o primeiro país da Europa a abandonar a monocultura industrial?
E se Portugal optasse, como povo, por ser um laboratório vivo de co-gestão ecológica, onde comunidades humanas e florestas selvagens voltam a conversar?
Desta vez o pioneirismo não seria com velas ao vento, mas com raízes no chão.





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