Monocultura de Árvores: Ligação Fatal entre falta de Biodiversidade e Fogos Florestais
Os “desertos verdes” em Portugal aumentam o risco de incêndios pelas influências térmicas que geram localmente. É urgente rever a gestão de terras e buscar soluções inspirada nos ecossistemas naturais
Por: Ricardo Meireles
O que acontecia no passado?
Quando se conversa em Portugal sobre fogos florestais, recorda-se saudosamente o tempo em que todos os montes estavam “limpos” e quase não havia incêndios. Estaremos a fazer a associação correta?
Nessa altura, cortava-se a vegetação rasteira, que viria a servir de cama aos animais nos estábulos. Mais tarde, toda essa biomassa misturada com os excrementos animais já curtidos seria utilizada como fertilizante para as culturas anuais. Com o abandono da agricultura tradicional quebrou-se esse ciclo que parecia perfeito. Essa vegetação deixa de ser necessária e acumula-se nos montes, servindo de combustível aos fogos de Verão. À primeira vista, parece que se deu a extinção de um movimento orgânico bem-sucedido. Só que não.
As fragilidades desse sistema
O que passa despercebido a quem dispersa esta teoria é que o movimento de “limpeza” constante da mata durante gerações provocou uma degradação do solo através da erosão e da evaporação. Ora, isso impediu a matéria verde de cumprir a sua função na linha de sucessão ecológica.
A cada corte, o sistema era levado “ao osso” e a natureza tinha de recomeçar o trabalho de cobrir novamente o solo para o manter húmido e protegido. Mais tarde, quando já estaria tudo pronto para se dar o próximo passo na sucessão e abrir caminho à vegetação mais exigente, era feito novo corte e tudo regredia. Foi neste ambiente de “sabotagem” permanente (e inconsciente) pelo homem à lógica da floresta que os ambientes autóctones foram perdendo terreno, dando lugar a espaços mais áridos, com menos biodiversidade.
Numa altura em que a ameaça dos incêndios florestais paira sobre muitas regiões de Portugal e do Mundo, compreender a ligação causal entre a estratificação das florestas e a prevenção de incêndios tornou-se urgente.
Entende-se por estratificação a distribuição organizada de plantas em diferentes estratos verticais. Cada espécie ocupa um espaço específico, otimizando a captação de luz, a eficiência fotossintética e a interação com o ecossistema circundante.
Viktor Schauberger, naturalista austríaco, estudou em meados do século passado o funcionamento das florestas e a sua relação com o ambiente circundante. Através das suas observações e estudos, Schauberger revelou que as florestas agem como “condensadores” naturais durante a fotossíntese. Isso significa que, sendo um processo endotérmico, a fotossíntese absorve energia do ambiente, esfriando-o à medida que converte a luz solar em nutrientes. O efeito desse processo é a criação de um gradiente térmico que atrai humidade da atmosfera, condensando-a e, consequentemente, não só enriquece o solo e a vegetação circundantes como também diminuem o risco de incêndio.
A ausência de estratificação, ou seja, a inexistência de uma floresta biodiversa, com espécies de diferentes necessidades de luz a ocupar diferentes patamares do espaço vertical, tem infuência na distribuição da atividade fotossintética e, consequentemente, na temperatura dos diferentes estratos da vegetação. O vento seco flui livremente, e o solo, agora mais seco, perde água por diferença de temperatura e humidade, tornando-se um solo propício para a degradação e formação de desertos. É um cenário que ecoa dramaticamente nas paisagens portuguesas devastadas pela intromissão humana no meio ambiente.
A preocupação central reside não apenas nas monoculturas, mas também nas florestas circundantes. Enquanto as grandes monoculturas podem ser estritamente monitorizadas palas corporações que as implantam, as florestas adjacentes muitas vezes carecem de atenção e cuidado semelhantes, mas não têm. Esta disparidade nas práticas de prevenção de incêndios cria um desequilíbrio perigoso, onde as áreas adjacentes podem facilmente tornar-se pontos de ignição para incêndios e rapidamente se espalhar, alimentados pelo ambiente seco criado pelas monoculturas dominantes.

Numa região de clima temperado como Portugal, a importância de estabelecer florestas biodiversas e estratificadas é ainda maior. Estas florestas têm a capacidade de atrair humidade atmosférica para o solo, atuando como barreiras retardadoras da evolução do fogo. O contraste entre a devastação causada por incêndios em áreas de monoculturas e o potencial de ecossistemas equilibrados é uma chamada urgente para a ação.
A mensagem fundamental a ser compreendida é a relevância de honrar as dinâmicas naturais dos ecossistemas, e a Agrofloresta Sucessional ou Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsch surge precisamente com esse propósito.
As florestas prosperaram durante milhões de anos em auto-gestão, até que, por mão do ser humano a manipulação e a eliminação entraram em cena. O conhecimento compartilhado por Victor Schauberger ou mais recentemente Ernst Gotcsh serve para lembrar que a gestão eficaz da floresta está intrinsecamente ligada à manutenção da estratificação vegetal, seja através da dinâmica natural das florestas ou do design ecológico de mão humana.
A proposta de Gotcsh para Plantar Àgua através da dinâmica da Agricultura Sintrópica é também um apelo à criação de florestas blindadas ao fogo através da criação e retenção de humidade no solo.
Enquanto desempenhamos um papel ativo na proteção contra incêndios, é crucial reconhecer que a nossa intervenção deve complementar, e não substituir, a sabedoria acumulada ao longo de milhões de anos pela própria natureza.
Preservar a estratificação vegetal é crucial para prevenir incêndios. Respeitar a sabedoria da natureza é a chave.
Nota: Este artigo é uma abordagem introdutória ao tema da estratificação e as consequências da sua ausência nos desertos verdes. Para obter informações mais detalhadas e aprofundadas sobre o tema, recomenda-se a leitura do livro “Vida em Sintropia” de Dayana Andrade e Felipe Pasini.




