Portugal incendiário? O problema começa no chão
Portugal incendiário explicado pelo solo, pela dieta e pela mente

Percebo o risco do monotematismo, se a palavra existir. Escrevi há dias “Voltar às Raízes – Renascer em vez de Arder” e podia ficar por aí, mas a época do fogo esticou-se no calendário e seria quase estranho não voltar ao tema. Volto, então, não para repetir, mas para ligar outra ponta do novelo, a da saúde mental e física de um país que desenhou a sua paisagem como um corpo em stress crónico, seco por dentro, alimentado à pressa e a más horas.
O momento que reacendeu esta conversa foi um recorte de 19 segundos multiplicado nas redes sociais, onde se ouve que o interior tem um problema de saúde mental transversal. A frase saiu num direto da CNN Portugal e foi arrancada do contexto, depois veio o próprio esclarecimento televisivo desdizendo a leitura simplista de “as pessoas do interior têm doenças mentais”, e ainda o enquadramento escrito que recorda a palavra-chave que a câmara não captou no excerto, transversal. Fica a poeira da polémica, mas sobra o essencial, há de facto um problema de saúde mental em Portugal e ele atravessa o país inteiro, campo e cidade, litoral e interior.

É aqui que trago uma ideia fundadora de Ana Maria Primavesi. Para quem não a tem no radar, Primavesi (1920-2020) foi uma engenheira agrónoma austro-brasileira que mudou a forma de olhar para a agricultura. Pioneira da agroecologia muito antes de a palavra entrar nas universidades, dedicou a vida a estudar o solo vivo e a ensinar agricultores a tratá-lo como um organismo, não como um substrato. É autora de “Manejo Ecológico do Solo”, um livro de cabeceira para várias gerações, e repetia uma ideia simples que hoje parece revolucionária: a saúde começa no chão que pisamos.
É essa ideia que trago para aqui, o homem é o que o solo faz dele. Não é metáfora, é fisiologia em cadeia. Um solo vivo dá plantas mais ricas, alimentos mais densos, organismos mais resilientes, menos reatividade, mais chão debaixo dos pés. Quando depauperamos o solo e simplificamos as paisagens, empobrecemos também a comida que sai delas, e um corpo mal alimentado é um corpo mais frágil, uma mente mais exposta à oscilação. Primavesi insistiu nisto a vida inteira e continua a iluminar as ligações esquecidas entre a biologia do solo e a nossa própria biologia.
A ciência contemporânea não desmente este fio, afina-o. Ensaios clínicos mostraram que melhorar a qualidade da dieta, aproximando-a de um padrão rico em comida verdadeira, reduz sintomas depressivos em adultos com depressão moderada a grave, não por milagre, mas porque a fisiologia responde ao que come, à inflamação que desce, ao metabolismo que desacelera do modo alarme. Não é a única peça do puzzle, é uma peça com efeito medido.
Ao mesmo tempo, revisões de grande escala associam maior consumo de ultraprocessados a piores indicadores de saúde, incluindo perturbações mentais comuns. Isto também não é uma sentença universal, é um sinal de risco que a vida moderna normalizou no carrinho de compras de quem vive no interior e de quem vive nas cidades, porque a cadeia longa e o preço curto atravessam todo o território. É comum ouvirmos quem antes plantava para auto sustento dizer que agora a terra está fraca, sem tratamento e adubo nada dá e que pelo dinheiro que se gasta mais vale ir à hortaliça ao supermercado.
E quando descemos da saúde para o comportamento, a literatura é mais cautelosa mas não é muda. Há ensaios e meta-análises que apontam para reduções de agressividade e de incidentes disciplinares quando se corrigem défices nutricionais e se introduzem ómega-3 e micronutrientes em grupos com maior vulnerabilidade, nomeadamente em contexto prisional. Não é panaceia, é outra peça a montante, outra ajuda para travar a escalada onde ela começa.
Dito isto, volto ao fogo. A série “País de Incendiários”, da DIVERGENTE, trouxe um dado incómodo, ao olhar para a área ardida por causa, e não apenas para o número de ocorrências, concluiu que o fogo posto explica a maior fatia de superfície queimada na última década. É o gatilho que não queremos ver, e convém encará-lo de frente, porque negar não resolve. Mas o meu foco está um passo atrás, no palco. Porque um fósforo aceso num claustro húmido pode morrer na unha, e o mesmo fósforo num corredor seco de resina e vento encontra o inferno pronto.

O palco foi sendo construído por nós ao longo de séculos, como quem molda um corpo para a fadiga. Retirámos matéria do chão sistematicamente, limpámos porque nos ensinaram que o “mato” é sujo, confundimos a fase de acumulação de energia de um sistema ecológico com risco e esquecemos que na sucessão natural as fases de colonização, acumulação e abundância, a acumulação de carbono no solo, com madeira em decomposição e folhada, é a estratégia da vida para guardar água, baixar temperatura, alimentar a microbiologia e preparar a estratificação. Um monte saudável não é um chão varrido, é um tecido de estratos que respira em conjunto, ervas, arbustos, sub-bosque, dossel, e a humidade presa no primeiro palmo de terra.

Este é o pano de fundo que faz com que uma ignição humana, criminosa ou negligente, tenha tanto terreno ganho. Não é preciso repetir a gramática do medo, “biomassa inflamável” e “mato sujo”, basta reconhecer a arquitetura homogénea e seca que fabricámos, talhões de idade igual, corredores de vento, linhas e caminhos a rasgar a continuidade da sombra. Foi esta ideia que desenvolvi no texto “Monocultura de árvores, ligação fatal entre a falta de estratificação e a prevenção de incêndios florestais”, não para absolver quem ateia, mas para não condenar a floresta a um estado perpétuo de adolescência.

Há quem use “eucaliptal abandonado” como palavra-passe para regressar ao argumento da monocultura bem gerida, como se a solução fosse afinar o ativo em vez de questionar o ativo. Prefiro dizer que abandono é o outro nome de um modelo extrativo que precisa de rotatividade, de retirar madeira sempre, de impedir o amadurecimento dos sistemas, de travar a passagem da acumulação para a abundância. Quando deixamos madeira no sistema, quando podas caem para alimentar solo, quando fechamos cedo o dossel, o mesmo território altera a sua física, arrefece, retém água, abranda o fogo.
Volto então ao princípio, saúde mental e física. É legítimo dizer que Portugal tem um problema e que ele é transversal, e é justo exigir melhor resposta clínica e social. Mas se a conversa ficar aí, perdemos a oportunidade de tratar a ecologia que nos trata. Se o interior é tratado como colónia de abastecimento, empurrado para cadeias alimentares longas e para uma dieta tão pobre quanto a de quem vive nas cidades, se o solo é empobrecido e a paisagem é mantida jovem para servir a extração, o resultado é conhecido, mais doença, mais reatividade, mais violência, e nenhum discurso moral resolve o que a topografia do prato e do monte desorganizam todos os dias.

Há ainda o tema de quem paga para olharmos para umas coisas e não para outras. O jornalismo de investigação na Europa vive de filantropia e programas europeus que juram independência; ainda bem que existem e sei que há gente séria. Mas as chamadas por tema tendem a premiar quem cabe nelas e isso estreita o horizonte. A independência prova-se no pluralismo real de ângulos. Haveria o mesmo apetite para um trabalho que inventariasse a ocupação resinosa do território e a captura da política florestal pela celulose e biomassa, décadas de exportação de um país em combustão lenta? Fica a pergunta.
Não escrevo isto para substituir uma culpabilização por outra. Escrevo para ligar pontos que andam separados por conveniência. Se aceitarmos que há gatilhos humanos, aceitemos também que os gatilhos se tornam tragédia porque o palco está pronto. Se concordarmos que a saúde mental precisa de recursos e respeito, concordemos também que a saúde começa no solo que pisamos e no alimento que dali nasce, e que este caminho é o mesmo caminho que arrefece o território, acumula carbono no chão, fecha a torneira da evaporação. Se admitirmos que o jornalismo precisa de financiamento, admitamos também que a independência se testa no desacordo com quem paga.
Volto a olhar o monte e vejo a mesma lição de sempre, colonização, acumulação, abundância. Passámos a fase de colonização das ideias, acumulámos o suficiente para abandonar a pressa, agora falta-nos a abundância, o silêncio que só aparece quando há sombra, o primeiro palmo de solo sempre húmido, a paciência de deixar madeira no lugar até o sistema baixar pulsação. Nesse dia, o fósforo continuará a existir, porque a condição humana não se apaga, mas o palco deixa de estar montado. E Portugal continuará a arder menos, não por milagre ou decreto, mas porque finalmente decidiu voltar às raízes que prometeu a si próprio que voltaria a encontrar.
Este artigo foi construído a partir de investigação própria e da leitura crítica dos materiais abaixo, com verificação cruzada sempre que possível e recurso a literatura científica revista por pares:
– Enquadramento do “País de Incendiários”, método por área ardida e episódio de apresentação. Divergente
– Contexto da polémica televisiva, 19 segundos, e clarificação posterior. Canal AlentejoFacebook
– Primavesi, o homem é o que o solo faz dele. Acervo Ana Maria Primavesi
– Dieta e depressão, ensaio clínico SMILES, e síntese crítica. BioMed Central
– Ultraprocessados e saúde mental, umbrella review 2024. BMJ
– Micronutrientes, ómega-3 e agressividade, evidência disponível. PMCebm.bmj.com
– Sucessão sintrópica, colonização, acumulação, abundância. agendagotsch.com
– Sobre modelos de financiamento e independência editorial, júris e cartas editoriais. IJ4EUeuropeandatajournalism.eucivitates-eu.orgEstratégia Digital Europeia



Mais uma vez, que belo texto! Muito obrigada pela partilha.
Parabéns, Ricardo. Excelente texto.