Entre 2 e 5 de novembro vamos plantar um bosque em Refojos de Riba de Ave, a poucos quilómetros da nascente do rio Leça. Para já é um campo raso, que passou anos entre milho e pastagem. Chama-se Bosque das Mós e queremos que um dia seja floresta, e que alimente.
O vale do Leça é terra de lavoura há muitas gerações. Hoje, grande parte dos campos produz milho para silagem, que alimenta as vacas leiteiras das explorações da zona. É um trabalho exigente, de todos os dias, feito por famílias que mantiveram estes campos cultivados. O Bosque das Mós nasce ao lado desses campos como mais uma forma de trabalhar a terra no vale, com outros tempos e outras culturas, e de portas abertas a quem tiver curiosidade de ver como corre.
A palavra regenerativo já anda nos relatórios das maiores empresas alimentares do mundo, ao lado das mesmas monoculturas de sempre. Por isso, simplifiquemos. Uma agricultura é regenerativa quando o solo tem, ao fim de cada colheita, mais matéria orgânica, mais água retida e mais vida do que tinha no início.
Como?
A agricultura que o Ocidente herdou do Crescente Fértil tem cerca de dez mil anos e a premissa de que plantar e colher empobrece. A fertilidade perdida repunha-se com pousio, com estrume trazido de fora, com florestas derrubadas e, no último século, com adubo extraído e trazido com a força do petróleo. Pense-se numa couve. Num canteiro lavrado, a couve cresce com a ajuda de estrume e, depois de colhida, a fertilidade precisa de ser reposta antes da cultura seguinte. Numa agrofloresta sintrópica, a mesma couve cresce na mesma linha que árvores que só darão fruto daqui a anos, com o chão coberto pela matéria das podas. Colhe-se folha a folha durante meses, e quando chega ao fim do ciclo as raízes ficam, a cobertura fica e as plantas vizinhas aproveitam a luz que ela transformou em energia disponível. No fim, o sistema tem mais matéria orgânica e mais vida do que antes da plantação. A fotossíntese passa a ser a fonte da fertilidade. Na tradição de que descendemos, plantar comida e deixar a terra mais rica é uma hipótese nova, uma revolução energética e é isso que vamos ensinar. Aproveitar alimento, madeira e sombra e prestar, no mesmo gesto, um serviço ao ecossistema.
O terreno é da Inês Silva e do Nuno Teixeira, que ali querem começar um projeto regenerativo com o apoio da Estação Agroflorestal. A formação junta os três. O primeiro dia é na Meditation House Porto, com a eco-mitologia, o herbalismo e a etnobotânica das plantas deste território, e com a teoria da agricultura sintrópica. Os outros três são de mãos na terra. Uma aula na agrofloresta da Manguela, com oito anos, e depois a leitura do terreno, a marcação das linhas, a plantação das árvores e dos canteiros, a cobertura total do solo e a primeira poda. Somos um grupo pequeno, entre oito e doze pessoas. Se alguma vez, ao ler um destes textos, ficou a vontade de ver como se faz, há aqui um lugar à espera. O que ficar plantado fica a crescer, e quem plantar pode sempre voltar para ver.

O sítio tem memória para isso. Refojos foi cabeça de julgado desde o século XIII, recebeu foral de D. Manuel e até 1836 governou treze freguesias, na sua maioria da bacia do rio Leça. O concelho tinha a forma da bacia hidrográfica que o compunha, e era aquilo a que hoje chamamos uma biorregião. Um território desenhado pela água, pelo relevo e pela vida que deles dependia, governado por quem bebia dessa água e cultivava esses vales. No topo, o castro do Monte do Padrão, habitado desde a época do Bronze até à Idade Média, tem nascentes que alimentam o Leça e o Ave. A reforma liberal extinguiu o concelho e em 1855 o território acabou em Santo Tirso, cuja sede fica na bacia do Ave.
Plantar um bosque no sítio onde o rio desce do monte e se faz vale é uma forma de voltar a pensar este território como um todo, e é isso que vamos fazer em novembro, com quem quiser juntar as mãos às nossas.
Formação e prática em eco-mitologia, herbalismo e agrofloresta sintrópica, com Inês Silva, Ricardo Meireles e Nuno Teixeira. De 2 a 5 de novembro, das 10h às 17h. Dia 2 na Meditation House Porto; dias 3, 4 e 5 na CArreira / Refojos de Riba de Ave, Santo Tirso. Grupo de 8 a 12 pessoas. Formação paga, com parte da receita destinada à instalação do bosque. Informações e inscrições: aursaparda@gmail.com ou pelo formulário.





Querido Ricardo. Como sempre a sintonia com tuas postagens me deixa pasmo, e nesse caso também a sincronia.... e se falarmos de sintropia... aí já são três sin, que sabes bem que significa estar junto, que une e , como na música - de onde os gregos inventaram o prefixo, aponta para a afinação de quem toca junto. Mais um texto memorável, um marco na tua caminhada... e com o que esta a desenhar-se por aqui, cda vez mais vontade de um dia te encontrar. Mandei mensagem em privado para ti. Força