Tudo o que Passa por um Estreito
O fecho do Estreito de Ormuz cortou o acesso aos fertilizantes que alimentam a agricultura mundial. A convencional depende disto. A biológica também. Há um sistema que não espera nada dali.
No início de março, as forças iranianas fecharam o Estreito de Ormuz. Trinta quilómetros de água entre o Irão e Omã, o único canal marítimo de saída do Golfo Pérsico para o oceano. Por ele passavam 20 milhões de barris de petróleo por dia, cerca de 20% do comércio marítimo global de crude. Bastaram alguns drones para transformar a zona numa área de incerteza que as seguradoras e as empresas de navegação não conseguiram ignorar.
A questão do petróleo recebeu toda a atenção, o que é compreensível. A crise agrícola que se abriu atrás dela é mais silenciosa e expõe todas as fragilidades de um setor.
Os países do Golfo Pérsico são responsáveis por cerca de 49% das exportações mundiais de ureia e 30% das exportações de amoníaco. Circula pelo estreito cerca de um terço do comércio marítimo global de fertilizantes, incluindo a ureia, o amoníaco e os fosfatos produzidos no Qatar, Arábia Saudita, Emirados, Iraque e Irão. Na primeira semana do conflito, os maiores produtores reduziram operações. Os preços globais da ureia subiram quase 26% em menos de duas semanas, de 465 para 585 dólares por tonelada.

Uma guerra fecha um estreito. Um estreito fecha uma cadeia. Uma cadeia fecha o acesso ao fertilizante. O fertilizante não chega ao campo. O campo não produz. Este é o caminho entre um conflito no Golfo Pérsico e o preço da fruta nos nossos mercados. É curto. É frágil. E já começou.
Pergunto-me, a propósito disto, quanto petróleo passou pela minha própria exploração há dez anos, quando produzia plantas aromáticas e medicinais.
Houve um ano em que percebi que as espécies que plantava precisavam de fertilizantes. O crescimento abrandava. A produtividade caía. A tela de solo estava colocada, os tubos de gota a gota corriam ao longo das linhas, tudo parecia em ordem. E no entanto o solo, imobilizado por baixo daquela cobertura de plástico, não conseguia receber nada. Sucumbia à estagnação porque a microbiologia do solo desapareceu.

Mas o mercado tem sempre uma solução. Esta vinha de Israel, sob a forma de um gel solúvel para fertirrega. Incorporava-se directamente na água de rega, circulava pelos tubos, chegava a cada planta gota-a-gota. Praticidade total. Enquanto decidia se comprava, fui contando: o gel, produzido noutro país; os tubos gota-a-gota, derivados do petróleo; os conectores, idem; a tela de solo, importada vinha da Argentina, mais petróleo; a bomba de rega, movida a electricidade de origem fóssil. Uma prática agrícola aparentemente simples, atravessada por petróleo do primeiro ao último gesto. Tudo para produzir e vender uma planta limpa, destinada a um consumidor exigente do norte da Europa, preocupado com a química residual que entrava no seu corpo ao tomar um chá de lúcia-lima.
A conta não fechava. O valor do gel era razoável. O que pesava era a consciência da pegada ecológica. Havia algo absurdo em produzir uma planta limpa de resíduos químicos com uma produção tão suja por detrás. Estas coisas perdem o sentido quando percebemos que somos o único ser neste planeta que inverteu a lógica da contribuição. Nascemos, vivemos, morremos e não deixamos um lugar melhor, com mais energia consolidada para as gerações seguintes.
Há um item concreto que o fecho do estreito coloca em evidência e que raramente aparece nas análises: o enxofre. Os países do Golfo produzem cerca de um quarto do enxofre global, subproduto da refinação de petróleo e gás. O enxofre é o corrector de pH mais utilizado em agricultura convencional e biológica. Aplica-se para acidificar solos alcalinos, tornando nutrientes como o ferro e o fósforo assimiláveis pelas plantas. Sem acesso ao enxofre, uma parte significativa dos solos tratados de forma convencional fica simplesmente bloqueada.
A dependência não afecta apenas a agricultura convencional. Afecta também a agricultura biológica, certificada e supostamente “sustentável”. A agricultura biológica moderna aplica ureia de origem mineral, fosfatos, enxofre elementar para correcção de pH. Recorre a embalagens de plástico, a máquinas a gasóleo, a transporte refrigerado. A etiqueta “biológico” descreve a ausência de pesticidas de síntese mas ignora a dependência das cadeias longas de abastecimento.
Praticamente todos os fertilizantes azotados do mundo são fabricados a partir de gás natural. O processo industrial que os produz, o mesmo desde há mais de um século, usa o gás como matéria-prima para fabricar amoníaco, que é a base da ureia e dos nitratos. A energia fóssil entra na molécula. O sistema alimentar moderno, biológico ou convencional, assenta nisto: numa cadeia que tem de vir de longe, passar por estreitos, ser segurada, escoltada, refinada e distribuída antes de chegar ao campo.

Existe, no entanto, um tipo de agricultura que não cria esta dependência.
Os sistemas agroflorestais agroecológicos, concebidos como imitação da dinâmica das florestas naturais, fecham os seus próprios ciclos. Não precisam de corrector de pH importado porque os seus solos não perdem pH para corrigir.
A floresta regula o seu próprio pH. A queda contínua de matéria orgânica, a decomposição foliar, a actividade microbiana intensa nos primeiros centímetros do solo, as raízes a profundidades diversas a circularem nutrientes entre camadas: tudo isto produz húmus, e o húmus tampona o pH. Solos ricos em matéria orgânica e em actividade biológica resistem à acidificação e à alcalinização porque a sua estrutura química é estável e diversificada.

A agrofloresta imita este processo e acelera-o. A poda constante devolve ao solo volumes contínuos de biomassa fresca. O design da plantação, com espécies de ciclos curtos, médios e longos a sucederem-se umas às outras, replica e comprime a sucessão natural. O resultado é um solo que não consome fertilidade adquirida no exterior mas sim a produz. Cicla nutrientes, acumula matéria orgânica, acumula energia. Cada ano que passa, o sistema precisa menos de fora e oferece mais de dentro. É o movimento que criou a vida: do simples para o complexo. A sintropia.
A questão prática que fica no ar: enquanto os gestores de risco discutem rotas alternativas para os navios-tanque e os ministérios da agricultura correm a distribuir subsídios para disfarçar uma fragilidade que já é rotina, o que é que uma horta, uma quinta, um sistema alimentar podem fazer para reduzir esta exposição?
Os sistemas agroflorestais agroecológicos respondem por si, com autonomia que cresce ao longo dos anos. Com solos que não precisam de enxofre do Golfo Pérsico para se corrigirem, porque aprenderam, como a floresta aprendeu muito antes, a corrigir-se sozinhos.
As confederações agrícolas exigiram medidas urgentes. A CAP, eterna viciada na compensação em euros, pediu 100 milhões ao Ministério e reconheceu, ela própria, que seria insuficiente. O modelo pede dinheiro para se aguentar de pé. Chega sempre. E o problema fica.
A pergunta céptica é sempre a mesma: e é com agroecologia que vamos alimentar o mundo?
A FAO tem uma resposta. Em 2019 adoptou os Dez Elementos da Agroecologia como quadro orientador da transição alimentar global. Em 2021 pediu explicitamente aos estados membros que reorientassem subsídios e investimentos para abordagens agroecológicas, reconhecendo que estão sistematicamente subfinanciadas. A organização que coordena a alimentação mundial disse, por escrito, que a direcção é outra.
O estreito fecha, abre, fecha outra vez. Os preços sobem. Os subsídios disfarçam o problema. E enquanto o mundo ferve, em solos que ninguém subvenciona, a sabedoria da floresta continua a corrigir o seu próprio pH e a produzir comida.


Agradeço o realçar das conexões entre a política internacional e bélica e as suas consequências a nível mundial e local num sector supostamente distinto. E, claro, a proposta de verdadeiras soluções acessíveis à maior parte de nós.