O vinho e a vinha que nos consome
A ecologia da nossa ressaca: o custo invisível da monocultura para a terra, para o corpo e para a economia.
Portugal é campeão mundial em consumo de vinho por cabeça. Quem nunca ouviu isto em reportagens entusiásticas, políticos de copo erguido e imprensa rendida à lágrima na parede do copo? O vinho, por cá, é quase hino nacional: motivo de orgulho, suplemento de revistas, cartão-de-visita nas feiras internacionais. Mas por detrás da cortina de celebração, há uma ressaca ambiental, social e até económica de que a imprensa raramente fala. Anda-se de braço dado com o copo, ignorando, por pudor ou conveniência, o preço real desse néctar para os solos, para os rios, para quem trabalha a terra e para o próprio paladar.
Mondovino e a morte do terroir
Se nunca ouviu falar de Mondovino (2004), não está sozinho. Este documentário de Jonathan Nossiter nunca teve honras de grande destaque por cá, apesar de ter passado por Cannes e abalado as estruturas do setor lá fora. Lembro-me de ter assistido ao filme, (eu e pouco mais de uma dúzia de curiosos), na penumbra do extinto Cinema Nun’Álvares, no Porto.

O documentário desmascara a globalização do vinho ao mostrar como críticos como o norte-americano Robert Parker e consultores como o francês Michel Rolland impuseram ao mundo um “paladar global”. Esta influência forçou vinhos de regiões tão distintas como Portugal, França ou Argentina a partilharem as mesmas características sensoriais: excesso de madeira, fruta sobremadura e elevada potência alcoólica.
Recentemente, vozes ligadas a este sistema tentaram rebater a ideia da “Parkerização”, alegando que o crítico apenas deu voz ao desejo genuíno dos consumidores. Contudo, essa suposta democratização do gosto foi, na verdade, uma esterilização cultural. O terroir transformou-se num mero slogan de marketing, enquanto as paisagens vitivinícolas passavam a ser fabricadas com o mesmo rigor artificial que o líquido dentro da garrafa.
Rolland, o enólogo superstar que percorre o planeta a bordo do seu jato privado, é retratado a aconselhar grandes casas a utilizarem técnicas como a micro-oxigenação para “amaciar” taninos e acelerar processos naturais. Tudo é desenhado para agradar ao sistema de 100 pontos de Parker, que destronou gerações de tradição local em nome da uniformização comercial. Ao espectador leigo, fica o alerta: o vinho que lhe chega ao copo pode ter viajado muito mais em química e consultoria do que em tempo e solo.
Da vinha do enforcado aos consórcios esquecidos
Muito antes de termos fileiras industriais de videiras solitárias, a vinha em Portugal era um sistema diverso, integrado e quase selvagem. Lembro aqui a “vinha do enforcado”: um método ancestral em que as videiras subiam pelos troncos dos amieiros, freixos ou carvalhos, numa aliança vertical e produtiva. Eram vinhas em consórcio, onde as árvores ofereciam sombra, suporte e frescura, criando um microclima natural muito antes de termos ventiladores ou geotêxteis.
Esta prática era o modelo dominante em muitas regiões da Europa desde o tempo dos romanos. Basta ler Virgílio, nas Geórgicas, onde descreve as vinhas plantadas junto a oliveiras e outras frutíferas, com ramos que se entrelaçavam em bosques onde a uva, a azeitona e o cereal conviviam em equilíbrio. No Alentejo, até ao século XIX, era comum ver esta policultura resiliente que devolvia fertilidade ao solo.
O oposto desse modelo é a monocultura geométrica que hoje domina a nossa paisagem. Ao retirarmos a árvore do sistema, condenámos a videira à solidão de um deserto biológico. O resultado foi a erosão galopante: sem as raízes profundas dos hospedeiros e sem a proteção da copa, o solo, especialmente no Douro e no Alentejo, está literalmente a correr para o rio a cada chuva intensa. O equilíbrio de Virgílio foi substituído por uma geometria estéril que precisa de assistência constante para não colapsar. A industria da química continua a agradecer, mas o solo já grita por socorro há décadas.
A função ecológica da videira e a planta débil
Para compreendermos o porquê de tanta dependência química, precisamos de olhar para a biologia da planta. A videira (Vitis vinifera) é, na sua essência, uma trepadeira de clareira. Na sucessão ecológica, a sua função é a de mediadora: ela aproveita a estrutura de árvores estabelecidas para alcançar a luz, equilibrando o ecossistema ao “puxar para baixo” quem cresce depressa demais impedindo a entrada de mais luz para quem ainda precisa no sistema.


Toda a vinha moderna é plantada num contexto totalmente fora da sua função ecológica. Ao forçarmos uma trepadeira de orla florestal a viver em pleno sol, sem suporte vivo e num solo despido, estamos a criar uma planta cronicamente débil. O que chamamos de “doenças da vinha” são, muitas vezes, apenas o grito de uma espécie stressada por viver fora do seu estádio sucessional. Por estar “fora do sítio”, a planta adoece, e para a manter viva, recorremos ao químico.
A imprensa de copo na mão e o preço do cobre
A paixão da imprensa portuguesa pelo vinho merece crónica à parte. Assistimos a programas televisivos onde se procura a “lágrima” no copo como se fosse o Santo Graal. O fenómeno, tecnicamente conhecido como efeito Marangoni, indica apenas viscosidade e álcool, mas é vendido como sinal de alma. Enquanto se discute a lágrima, ignora-se o rasto ambiental. A mesma imprensa que faz suplementos coloridos com anúncios de produtores sofre de amnésia quando o tema é o impacto da produção no solo ou na saúde pública. Ver produtores de vinho revoltados com alertas sobre os riscos do álcool é como assistir a produtores de canábis a manifestarem-se contra quem comunica os malefícios do haxixe.




O preço oculto desta indústria é, entre outros, a crise do cobre. Usado mesmo no modo biológico, este metal pesado é letal para a microvida do solo. O cobre inibe a fixação de azoto e mata a micro vida do solo, fazendo com que a terra perca a respiração. É uma crise ecológica silenciosa. A outra crise, bem mais ruidosa, é a do próprio setor: produziu-se demais, incentivado por subsídios e bolhas de otimismo. A bolha agora rebentou no Douro e não é apenas de stock; é o delírio da monocultura a cobrar juros. Quando a terra adoece, quando o mercado satura, resta pedir à sociedade que pague a diferença.
Devolver a orquestra à vinha
Não é preciso acabar com a vinha, mas é urgente devolver-lhe a orquestra que lhe roubámos. Precisamos de resgatar a videira para o seu lugar original, os consórcios antigos e as bordaduras de árvores. O caminho para um vinho verdadeiramente bom (e não apenas pontuado) passa pela transparência entre o que está no copo e o que sobra na paisagem. É necessário aceitar que não há quantidade segura de consumo de álcool e que a saúde do solo é indissociável da nossa própria saúde. Só regenerando o ecossistema, respeitando o lugar da videira na sucessão natural, poderemos ter um vinho que nos orgulhe sem nos pedir contas que já não conseguimos pagar.



