O Telhado Chegava
Painéis solares: temos telhados para duas a três vezes o que consumimos em casa. Mas reservámos 456 mil hectares de solo rústico. Como se chega de um ponto ao outro?
No dia 28 de Abril de 2025, ao princípio da tarde, a Península Ibérica apagou-se em cinco segundos. Tenho familiares que nesse dia estavam debaixo de um telhado coberto de painéis, pagos à EDP, com o inversor de corrente instalado e a funcionar. O sol caía em cima da casa, os painéis absorviam a energia toda, e essa energia ia parar a lado nenhum. Nem uma luz se acendia lá dentro.
No mesmo dia, um casal amigo, a Alice e o André, que há muitos anos exploram com persistência os modos de vida mais resilientes, publicava numa rede social que o sol e umas baterias de chumbo compradas a preço acessível lhes estavam a dar a energia toda de que precisam para a vida frugal que com orgulho vão mostrando. O post recebeu uma série de comentários depreciativos. Entre eles, o argumento de que é muito fácil para quem tem terreno. Os painéis deles estão no telhado. Curioso.
Duas casas portuguesas, o mesmo sol, o mesmo dia. Numa, o investimento grande, o contrato com a empresa, a escuridão. Na outra, os painéis apoiados pelas baterias de chumbo e a luz acesa. A explicação técnica é simples: os sistemas ligados à rede desligam o inversor quando a rede cai, por segurança de quem repara as linhas, e os painéis ficam inúteis exactamente no momento em que fariam mais falta. O sistema foi desenhado para que os painéis sirvam a rede primeiro e a família depois. No dia em que a rede caiu, ficou claro quem serve quem.




A história por trás da explicação técnica é a de como um país desenhou, e depois desmontou, a hipótese de uma energia democrática.
Em 2007 a política energética portuguesa promovia a microprodução doméstica: instalava-se, ligava-se à rede, vendia-se tudo a uma tarifa bonificada, calculada de maneira a que o investimento se pagasse a si próprio. Milhares de famílias fizeram as contas, pediram crédito e ousaram subir ao telhado. E a área chegava. Chega ainda. João Joanaz de Melo, professor de Engenharia do Ambiente na Nova e ligado ao partido do Governo (PSD), resume o que os estudos dizem: “no edificado doméstico e de serviços português, temos área suficiente para produzir duas a três vezes o consumo das famílias e dessas empresas”. Três vezes. Sobre o caminho que se seguiu em vez desse: “Isto é uma iniquidade e um erro estratégico. Devíamos ter um metro descentralizado por cada metro centralizado.”

Um país com área construída para o triplo do que consome em casa reservou 456 mil hectares de solo rústico para centrais de escala. Entre uma frase e a outra há uma distância. Este texto é sobre a maneira como ela se foi abrindo.
O desmantelamento fez-se em três fases. Em 2007, a bonificação. O Estado pagava acima do mercado tudo o que o telhados produziam. Em 2014, revogou o regime bonificado e a remuneração passou a licitação, sem garantias, sempre a descer. Quem tinha instalado com as contas feitas à lei antiga viu o horizonte de retorno estender, sem ter mudado nada na sua instalação. De 2022 em diante, os excedentes de autoconsumo ficaram indexados ao mercado grossista, e o mercado grossista, nas horas de sol, afunda-se com o excesso de oferta. O próprio regulador escreve que se formam com frequência crescente preços nulos e negativos, sobretudo em horas solares. Os telhados produzem quando o preço é zero. Em 2023, os produtores renováveis em mercado receberam em média 71 euros por MWh, menos 51% do que no ano anterior.
Enquanto a bolsa se apertava para os que ousaram, abria-se para o outro lado da rede. Quando o mercado eléctrico abriu à concorrência, o Estado comprometeu-se a compensar a EDP pelo lucro que os contratos antigos lhe garantiam. Chamou-se-lhe CMEC (Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual), uma indemnização paga pelos consumidores na factura da luz, 3,4 mil milhões de euros ao todo, dentro dos quais a ERSE identificou 510 milhões de rendas excessivas. O corte estava previsto no memorando da troika, e ficou por fazer porque o ministro das Finanças preparava a privatização da EDP a favor da China Three Gorges e não queria desvalorizar a empresa. Em plena austeridade, com o país a cortar salários e pensões, o Estado preservou a renda para não estragar o negócio. A lei mudou para o microprodutor que tinha investido confiando nela. A renda manteve-se intacta para o accionista que ia comprar a empresa. O país prepara o activo, suporta os custos e entrega a outros o valor. Primeiro foi a empresa. Agora é o território.
É neste contexto que chega o PSZAER, o programa que designa as zonas de aceleração de energias renováveis, os tais 456 mil hectares de solo rústico onde abrevia o licenciamento e dispensa o impacte ambiental individual. Deixei o meu contributo na consulta pública, e o essencial está neste artigo. A avaliação ambiental reconhece que a área necessária para cumprir a meta do PNEC 2030 ronda 1% do território. O mapa identifica cerca de 7%. Sete vezes o necessário. O curioso é que a mesma avaliação enumera as alternativas, áreas artificializadas, centrais existentes, autoconsumo, comunidades de energia, e o mapa foi desenhado por cima delas. A área artificializada concentra-se nas cidades, e é precisamente das cidades que as manchas do mapa se afastam. Quem decide nunca vive nos locais condenados.

Vivo numa das zonas onde o mapa mais incide. Em Santo Tirso, a mancha mais carregada e mais contínua cai sobre as zonas rurais encostadas aos centros urbanos, porque encurtar o transporte é maximizar o lucro. E cai, com uma precisão que me fez parar no ecrã, sobre os locais mais povoados por eucaliptais. Duas actividades económicas fratricidas a lutar pelo mesmo território. A celulose e a eletricidade disputam o mesmo solo exaurido, e nenhuma das duas lhe devolve nada. O solo que já foi esgotado por uma monocultura é agora o candidato ideal à seguinte, porque ninguém lhe reconhece valor que trave o negócio.

Sete vezes a área necessária, para alimentar o quê? Os centros de dados representam 72% da potência total pedida à REN. Só o projecto da Start Campus em Sines prevê 1,2 gigawatts, praticamente um quinto do pico de consumo nacional. O campus reclama funcionar a 100% energia renovável, mas essa etiqueta faz-se por contratos e certificados, uma contabilidade anual que iguala a produção ao consumo total do ano. O datacenter trabalha a cada hora do dia. Os painéis produzem durante uma fracção dessas horas. A diferença vem da rede, gás incluído nas pontas nocturnas. Queira o destino que não nos vá mergulhar em mais apagões técnicos. E a conta explica o mapa: cobrir 1,2 gigawatts com produção solar equivalente exige cerca de 6 gigawatts instalados, na ordem dos 10 a 12 mil hectares só de painéis, para um único cliente industrial. O telhado chegava para as famílias do país inteiro, e vão ser precisos 10 mil hectares de solo para um único cliente industrial.

E a decisão vive noutro continente. A 21 de Julho, a Google apresentou o Nuvem, o cabo submarino que liga a Carolina do Sul a Sines, o segundo da empresa a chegar a Portugal. O embaixador norte-americano anunciou mais de 40 mil milhões de dólares de investimento até 2031, que farão do país “a maior concentração de investimento em infra-estruturas de inteligência artificial americana em toda a Europa”. Cuba foi o quintal dos Estados Unidos e deu-lhes açúcar barato. Portugal candidata-se a quintal solar, para lhes dar electricidade barata. Um especialista citado pelo ECO explica que o consumo dos datacenters “pode ser um desentupimento” para os preços afundados pelo excesso de oferta solar. O excesso que zerou o preço pago ao microprodutor é o mesmo que ameaça a rentabilidade das grandes centrais. A solução foi criar procura nova, e a procura nova justifica área nova. O sistema a alimentar o desequilíbrio de que ele mesmo vive…
Aqui devo ao leitor uma confissão, porque escrevo isto rodeado dos dois materiais que o texto parece condenar. Nas minhas consultorias uso eucaliptos ao desenhar as agroflorestas. Planto-os para acelerar a regeneração de terrenos pobres. Só que crescem no meio de 70 a 80 espécies diferentes e saem do sistema ao fim de cinco anos. São máquinas a bombear nutrientes de horizontes do solo difíceis de atingir. E uso painéis solares. De dia, com sol, a energia direta bombeia a água para uma cota mais elevada do terreno. Ao fim do dia, quando se deve regar, a água desce por gravidade até às plantações. Um telhado, um local mais degradado é sempre o ideal. Dificilmente uma árvore precisará ser abatida para os instalar. Pelo contrário, a energia solar vai servir para acelerar a complexidade do ecossistema. O mal nunca esteve no eucalipto nem nos painéis. Está no desenho. O mesmo painel que nos telhados democratiza a energia pode, espalhado por 456 mil hectares, concentrá-la nas mãos de meia dúzia. É essa democratização que se está a perder, e foi um pouco dela que morreu no dia do apagão, quando as casas cobertas de painéis ficaram às escuras e um casal com poucos painéis baterias de chumbo acendeu a luz.

Quem faz solo aprende a pensar noutro tempo. Quando parto para fazer solo e ir colhendo dele aos poucos, não posso ter a pressa do silvicultor que corta tudo de sete em sete anos. Se pensássemos como uma floresta, seríamos mais pacientes e mais visionários. A economia distingue, desde Georgescu-Roegen, a energia de stock e a energia de fluxo. Os fósseis são radiação solar acumulada durante centenas de milhões de anos, um capital gasto em duzentos. A renovável é fluxo, é o que chega hoje, e o fluxo tem um tecto. E o fluxo que cai sobre um hectare tem dois destinos possíveis. Pode ser capturado por um painel e vendido ou usado no próprio dia. Pode ser capturado por uma árvore e acumulado como madeira, como húmus, como água retida no solo, o único mecanismo que volta a transformar fluxo em stock. Os painéis vendem a energia para queimar no dia. A floresta guarda-a. O “mapa verde” decide, hectare a hectare, qual destes dois destinos leva o sol deste país.
Há uma régua para medir esta escolha. A escala de Kardashev classifica as civilizações pela energia que capturam, e mede o progresso por uma só grandeza, o consumo. A régua está em uso. Este mês, a SpaceX pediu autorização para colocar em órbita até um milhão de satélites destinados a alojar centros de dados no espaço. Musk apresentou a constelação como primeiro passo para uma civilização de Tipo II, porque a energia disponível em terra já não chega para alimentar a inteligência artificial. É o mesmo apetite que traz o cabo a Sines e abre 456 mil hectares de solo rural neste país. Esgota-se a terra, sobe-se ao nível seguinte, sem limites de apetite, sem se questionar nunca o limite físico do crescimento.
Pergunto-me que lugar ocupa nesta régua uma cidade. As cidades são um buraco negro de energia. Não produzem quase nada do que consomem, não olham a meios, e vão degradando tudo o que está à volta para manterem desesperadamente o seu estilo de vida distanciado da natureza real. A comida vem de fora, a água vem de fora, a energia vem de fora, e agora até o pensamento das máquinas que as servem se vai fabricar em solo rural. O mapa verde que se afasta das cidades e cai sobre o campo é a fotografia disto. E se a régua estiver ao contrário? E se uma civilização superior for exactamente a que aprendeu a viver do fluxo sem destruir o que tem à volta, a que se mede pelas espécies que consegue manter vivas enquanto se alimenta, pelo solo que deixa mais fundo do que o encontrou? Nenhuma destas grandezas tem escala, nenhuma tem nome de físico soviético, nenhuma serve para dizer que estamos a ganhar. Talvez seja por isso que ninguém as mede.
Chamemos os bois pelos nomes. O que se está a fazer é desmatar. E pior do que desmatar, o que se está a fazer é não plantar. É reservar o solo para não deixar criar solo, para não deixar o húmus engrossar ano após ano, à espera das gerações que hão-de vir depois de nós. Trocamos essa riqueza lenta por energia que se vende hoje a um comprador que amanhã pode mudar de continente como quem muda de roupa.
O comprador tem um nome e uma função. Os dados que saem de Sines não alimentam os hospitais nem as escolas portuguesas. Alimentam os modelos de linguagem e os sistemas de recomendação que servem, primeiro, a máquina económica americana. A electricidade barata que aqui se produz converte-se numa vantagem competitiva lá fora, na mesma lógica que atravessa toda a história económica deste país. Vendemos a matéria-prima, ficamos sem o valor que ela gera depois de sair. A celulose do eucalipto sai em pasta e volta como produto acabado. O azeite sai a granel em cisterna e segue para outros mercados engarrafado com um preço e uma proveniência que já não é a nossa. O Vale do Ave tece para marcas que nunca lá tiveram sede. E agora sobe do Barroso o lítio, para baterias que se montam noutro país, com a mesma promessa de progresso que nenhuma das anteriores cumpriu para quem ficou com a paisagem escavada.
É sempre a mesma peça, com actores diferentes. A empresa nacional robustecida com rendas pagas nas facturas e vendida a capital chinês. O microprodutor descartado, o mapa desenhado sete vezes maior do que a necessidade, o sol de cada dia capturado em Portugal para se acumular como valor noutro continente, numa continuidade de políticas feita com a cumplicidade de governos sem olhos para o futuro, que não percebem que o que vai sustentar um país no caos climático que aí vem é a floresta madura que resiste ao fogo, o solo profundo que segura as cheias, a água guardada na esponja viva do húmus. Essa parte resolve-se com o que crescer no chão, e com mais nada. É isso que se está a hipotecar, hectare a hectare, para vender barato aquilo que devíamos guardar caro.
No dia do apagão, a casa dos meus familiares, coberta de painéis, ficou às escuras. A luz acesa estava na casa de quem tinha desenhado o seu sistema para servir primeiro quem vive lá dentro. Fica a pergunta, e é a mesma para uma casa ou para um país. Que país continua a vender a terra a metro quadrado, quando é da terra, e só dela, que vai depender sobreviver ao que aí vem?



Caro Ricardo,
O teu texto é de uma lucidez e sensibilidade raras, porque consegue desmontar a narrativa oficial da transição verde a partir da realidade concreta da terra, da fatura das famílias e da própria física dos sistemas. A imagem do apagão - o contraste entre as casas conectadas à rede que ficaram às escuras e a resiliência simples da casa off-grid - resume com precisão a grande contradição do nosso tempo. O sistema não foi desenhado para dar autonomia aos cidadãos, mas para canalizar fluxos de capital e garantir o abastecimento de grandes atores.
Subscrevo por inteiro a tua crítica à ocupação de 456 mil hectares de solo rústico quando temos telhados e zonas impermeabilizadas de sobra. Ainda assim, a leitura do teu artigo faz-me pensar em alguns pontos que tornam esta equação ainda mais perversa e que reforçam a gravidade do que está a acontecer com o PSZAER.
Em primeiro lugar, há a questão do próprio consumidor que investe no telhado. Não se trata apenas de o inversor desligar por razões de segurança da rede; trata-se de um enquadramento regulatório que desincentiva ativamente a instalação de sistemas híbridos com comutação automática. A regulamentação e as exigências técnicas da DGEG e da ERSE foram construídas de tal forma que amarram o cidadão à infraestrutura central. Quem tenta criar a sua própria resiliência com armazenamento encontra barreiras burocráticas e custos acrescidos. Pagas o equipamento, mas a regra do jogo impede-te de usar a tua própria energia quando a rede falha.
Depois, há um lado de usurpação do planeamento local que o PSZAER concretiza sem rodeios. Ao transformar vastas manchas de solo rústico em zonas de aceleração, o poder central passa por cima dos Planos Diretores Municipais e da vontade das comunidades locais. Isto gera uma pressão especulativa brutal no campo: o pequeno agricultor ou quem está no terreno a tentar regenerar a terra com técnicas agroecológicas simplesmente não consegue competir com as rendas anuais por hectare oferecidas pelas multinacionais da energia. O programa não está apenas a disputar espaço ao eucaliptal; está a bloquear ativamente a regeneração e a soberania alimentar.
Outra grande contradição que se esconde por trás desses 456 mil hectares é a própria incapacidade física da rede elétrica nacional para absorver tanta energia sem armazenamento em grande escala. Nos dias de pico solar, o excesso de oferta sem capacidade de rede vai inevitavelmente conduzir ao corte forçado de produção, o chamado curtailment. Ou seja, vamos ver ecossistemas destruídos e solos selados para instalar painéis que, em vários momentos do ano, terão de ser desligados porque não há onde meter a eletricidade. E a ineficiência deste modelo acabará, como sempre, refletida na tarifa de uso da rede paga por todos nós.
Ao mesmo tempo, ao extrativismo energético para alimentar os data centers de Sines e a inteligência artificial do outro lado do Atlântico junta-se uma pegada hídrica da qual quase não se fala. Estes grandes agregados de servidores exigem volumes gigantescos de água para os seus sistemas de arrefecimento. Numa região do país estruturalmente fustigada pela seca, estamos a entregar o solo para a produção fotovoltaica e os aquíferos para arrefecer máquinas, tudo para processar dados que não deixam valor real no território que os acolhe.
No fundo, aquilo que o teu ensaio expõe brilhantemente é que a transição energética em curso não é uma transição de paradigma, mas apenas uma transição de combustível. Mantém-se a mesma lógica centralizadora, extrativista e colonizadora do território, trocando o carvão e o gás por hectares de silicone, e sacrificando a esponja viva do húmus em nome do consumo ilimitado das metrópoles e das grandes tecnológicas. Obrigado por pores em palavras aquilo que a terra e quem trabalha nela já sentem há muito tempo.
Mais uma vez encontro em tuas palavras os argumentos que uso no dia a dia. Vou ler de novo, com calma , e depois deixo aqui meus comentários de sempre. Por agora, como estou com pressa para sair, um enorme, profundo e claro OBRIGADO por mais um de teus inspiradores textos.