Eles não Lavram nem criam
O erro de leitura dos portugueses no Brasil e o fio perdido da agrofloresta de sucessão na história da agricultura.
1. No princípio, foi a carta
“Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos que a terra e as árvores de si lançam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios, que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos.”
Foi assim, mais palavra menos palavra, que Pêro Vaz de Caminha descreveu os povos que encontrou quando a armada de Cabral encostou no litoral do que viria a ser chamado Brasil. Uma carta enviada a D. Manuel I, cheia de detalhes sobre corpos, hábitos, madeiras e águas, mas onde esta passagem salta à vista: eles não lavram, não criam gado, comem “inhame” e frutos das árvores e, apesar disso, estão mais fortes e saudáveis do que nós, com todo o nosso trigo e legumes.
É difícil arranjar um resumo mais perfeito da arrogância europeia: olhamos para um povo bem alimentado, com corpos “rijos e nédios”, vivendo de uma relação íntima com a floresta… e a primeira conclusão é que “não lavram nem criam”. Ou seja: não fazem agricultura “a sério”.
Hoje sabemos que esse tal “inhame” de que fala Caminha não era só uma raiz perdida no mato. Era, muito provavelmente, mandioca – base de sistemas agrícolas complexos, plantada e gerida ao longo de gerações. Sabemos também que aquela floresta não era um “supermercado natural” onde bastava estender a mão: era uma paisagem trabalhada, com pomares, roçados, caminhos de caça e solos construídos ao longo de séculos, o que a ciência moderna baptizou de terra preta de índio. Terras escuras, férteis, cheias de carvão, cerâmica, restos orgânicos e nutrientes, criadas por povos indígenas entre há 500 e 2 500 anos.
Ou seja: quando Caminha escreve “eles não lavram nem criam”, o que está a acontecer não é uma descrição neutra da realidade. É um choque de modelo mental. Para os europeus, agricultura significava arado, campo limpo, gado, cereais, propriedade cercada. Tudo o que não coubesse nesse pacote era rapidamente etiquetado como “recolecção”, “atraso” ou “preguiça”. Mesmo quando os corpos à frente deles desmentiam a narrativa.
A ironia é esta: naquele pequeno parágrafo da carta, o cronista português deixa escapar tudo o que precisava de ver e não viu. Um povo que não revolve o solo, que vive de raízes e frutos, que organiza o seu sustento em torno da floresta, e que parece estar metabolicamente mais saudável do que a Europa que o envia. Em 1500, tivemos nas mãos um relato detalhado de uma outra forma de produzir alimento e decidimos lê-lo como prova de que o “índio” precisava de aprender a lavrar.

Este texto nasce exactamente desse ponto cego:
e se, em vez de ver ali um povo “que não lavra”, tivéssemos reconhecido uma agrofloresta de sucessão em pleno funcionamento?
2. A história única da agricultura… que nunca existiu
Se passaste pela escola portuguesa standard, provavelmente decoraste uma linha simples, quase higienizada, da história humana: durante muito tempo fomos caçadores-recolectores, depois veio a Revolução Neolítica no Crescente Fértil, inventámos a agricultura, domesticámos animais, criámos aldeias, cidades, Estados, e pronto, o resto é detalhe.
É uma história bonita porque encaixa bem num slide de PowerPoint. O problema é que não encaixa assim tão bem na realidade.
Nas últimas décadas, arqueologia e antropologia têm vindo a desmontar com alguma paciência esta narrativa linear. O que aparece, quando começamos a olhar com mais atenção, não é uma auto-estrada “recolecção → agricultura → civilização”, mas uma espécie de encruzilhada permanente: zonas onde se plantavam algumas espécies e se caçava o resto; cidades sem reis e sem exércitos permanentes; agricultores sem desigualdade estrutural; povos que alternavam entre modos de vida ao longo do ano, quase como se estivessem a testar diferentes versões de sociedade.
No livro O Princípio de Tudo: Uma nova história da humanidade (Bertrand Editora, 2022), David Graeber e David Wengrow resumem isto de forma particularmente clara: a agricultura, por si só, não significou o início da propriedade privada nem marcou um caminho irreversível rumo à desigualdade. Muitas das primeiras comunidades agrícolas que conhecemos eram surpreendentemente igualitárias, e algumas das primeiras cidades funcionavam sem soberanos, sem generais e sem burocracias pesadas.
Traduzido em português corrente:
não houve uma única “descoberta” da agricultura, houve muitas.
Não houve um único modelo de agricultura, houve dezenas.
E não era inevitável que o modelo mais agressivo com o ecossistema fosse aquele que acabaria a mandar nos outros.
Enquanto no Levante e na Mesopotâmia se consolidava um pacote agrícola baseado em cereais, arado e grandes irrigações,com direito a salinização de solos, desflorestação e colapsos periódicos de civilizações inteiras, noutras partes do mundo desenhavam-se soluções muito diferentes: jardins florestais no Sudeste Asiático, pomares complexos no Pacífico, sistemas agroflorestais nas Américas, roças e quintais africanos onde árvores, tubérculos e culturas anuais conviviam num mosaico fino.
O que hoje chamamos, com alguma pompa, agrofloresta de sucessão é, em grande medida, a continuação consciente de uma dessas linhas paralelas da história: a linha em que o ser humano aprende a comer com a floresta, não contra ela.
O problema é que, quando os navios portugueses aportam ao Brasil, essa história alternativa já vem com um rótulo colado: “eles não lavram nem criam”. E quando trazes na bagagem séculos de arado, de desflorestação, de peste e de fome, é muito difícil reconhecer como agricultura qualquer coisa que não se pareça com o teu próprio cansaço.
É aqui que a conversa sobre agrofloresta de sucessão começa:
não com uma técnica moderna “alternativa”, mas com um reconhecimento tardio de que nunca houve só uma agricultura possível.
A seguir, vamos olhar para o outro lado do espelho: a Europa cansada que chega ao Brasil já em estado avançado de burnout ecológico e a floresta que, mesmo assim, foi tratada como se fosse um atraso a corrigir.
3. A Europa já estava doente quando chegou ao Brasil
Quando os navios de Cabral chegam à costa do Brasil, não é a “civilização saudável” que encontra selvagens nus e felizes no mato. É um continente exausto que encosta numa floresta em boa forma.
Durante séculos, a Europa vinha a serrar a própria base. Florestas derrubadas para lenha, carvão e construção naval, encostas e planícies abertas à pressa para pasto e cereais, terras trabalhadas até à exaustão. Quando faltava madeira, abria-se mais um monte; quando o solo cansava, abria-se mais um bocado de mata. A agricultura era, na prática, uma guerra permanente contra qualquer coisa que se parecesse com floresta.
Nas cidades, o quadro não era melhor. Epidemias recorrentes, água contaminada, esgotos improvisados, pessoas amontoadas em vielas sem luz nem ventilação. A peste não era um episódio isolado da Idade Média; era quase uma personagem recorrente. Vistas à distância, estas grandes concentrações humanas mais pareciam sintomas de uma paisagem doente do que sinal de “progresso”.
Não é que o camponês medieval ou renascentista acordasse de manhã a pensar em destruir ecossistemas. Ele queria sobreviver, alimentar filhos, pagar dívidas. Mas o pacote mental era este:
terra boa é terra limpa;
floresta é obstáculo;
natureza vale sobretudo enquanto recurso.
Agora volta ao parágrafo de Caminha. Aqueles corpos “rijos e nédios” que ele descreve são, no fundo, o espelho invertido de uma Europa familiarizada com a fome, a doença e o desgaste físico precoce. A carta de achamento não é só a descrição de um “outro” exótico; é um retrato indireto do cansaço ecológico de quem escreve.
E é aqui que a ironia dói um bocadinho mais:
um continente em burnout ecológico chega a uma floresta que conseguiu alimentar gente durante séculos sem se esgotar —
e a conclusão é que quem precisa de aprender agricultura são os indígenas.
4. O que os portugueses não viram na paisagem indígena
Voltemos à frase: “Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos que a terra e as árvores de si lançam.”
Para um português do século XVI, isto soa a vida de recolector: uma raiz qualquer, frutos que “a terra dá”, sementes que “caem das árvores”. Ou seja: nada de muito sério. Nada que pareça arado, talhão, gado e fronteira bem marcada.
Hoje, sabemos que essa leitura era, no mínimo, pobre.
Primeiro, o tal “inhame”. A maior parte dos investigadores concorda que aquilo que Caminha chamou “inhame” era, muito provavelmente, mandioca. E mandioca não é um acaso da floresta: é cultivo. Está plantada, escolhida, replantada. Faz parte de sistemas onde tubérculos, árvores de fruto, palmeiras e outras culturas convivem em diferentes alturas e tempos. Não é um snack espontâneo mas a base de um sistema alimentar pensado.
Depois, a própria floresta. Durante muito tempo, a imagem dominante foi a da “Amazónia virgem”. Um imenso tapete de natureza intocada, onde o ser humano entrou apenas de raspão. As últimas décadas têm destruído esse mito com alguma elegância. Aos poucos, fomos descobrindo que muito do que tomávamos por mata “natural” é, na verdade, paisagem trabalhada: florestas enriquecidas com espécies alimentares, pomares disfarçados, clareiras abertas e fechadas ao ritmo do fogo, da roça, da regeneração.
E, debaixo de tudo isso, a tal terra preta de índio: solos escuros, extremamente férteis, cheios de carvão vegetal, fragmentos de cerâmica, restos de ossos, sementes, matéria orgânica acumulada. Não é um acidente geológico. É o registo no solo de séculos de cozinha, de lixeira bem colocada, de compostagem involuntária, de gestão paciente de resíduos. Em suma: de gente a viver muito tempo no mesmo lugar sem destruir o chão em que pisa.
Se quiseres, podes imaginar a cena ao contrário. Em vez de um português a olhar para a floresta e a dizer “não lavram nem criam”, imagina um agricultor indígena a atravessar o Atlântico e a escrever, ao chegar à Europa:
“Eles arrancam as árvores todas, deixam a terra nua, insistem em plantar só uma coisa de cada vez, abrem sulcos cada vez mais fundos até a terra ir embora nos rios… e depois admiram-se de viver entre fome e epidemias.”
É uma inversão injusta? Talvez. Mas serve para mostrar o ponto: não é a realidade que fala por si. São os nossos óculos.
Os portugueses viram um povo que “não lavra” porque lavrar, para eles, significava abrir o solo, pôr cereais, dominar o mato com ferro e fogo. Não lhes passou pela cabeça que se podia fazer agricultura sem destruir a floresta — ou melhor, que se podia fazer agricultura justamente tornando a floresta mais complexa e mais produtiva.
Aquilo a que hoje chamamos “agrofloresta de sucessão” já estava ali, em linguagem indígena:
Estratos: plantas baixas, médias, altas, emergentes, todas a partilhar o mesmo espaço.
Sucessão: espécies que preparam o caminho para outras, numa dança lenta em que a paisagem nunca está acabada.
Alimento, fibra, medicina, madeira e beleza misturados, em vez de separados por talhões.
A carta de Caminha é o relato de um encontro entre dois modos de estar na terra. Nós escolhemos o nosso e passámos 500 anos a exportá-lo como se fosse o único possível. O outro ficou arquivado como exotismo.
É aqui que a conversa muda de tom:
quando falamos hoje de agrofloresta de sucessão, não estamos a inventar mais uma moda agrícola. Estamos a tentar dar nome, método e continuidade a uma forma de agricultar que foi sistematicamente ignorada, quando não apagada, desde o primeiro “eles não lavram nem criam”.
5. O atalho errado que ganhou: do Crescente Fértil à plantação
Quando falamos da tal “Revolução Neolítica” no Crescente Fértil, estamos a falar de um pacote que junta quatro coisas que vão marcar quase toda a história agrícola que nos ensinaram: cereais, arado, irrigação e desflorestação. Trigo e cevada em campos abertos, água desviada em canais, árvores abatidas para dar lugar a terras “limpas”, tudo organizado para alimentar cidades, exércitos e burocracias.
Este modelo tem uma vantagem óbvia: concentra muita energia com relativa rapidez. Em poucas décadas, uma paisagem de mato e bosque passa a ter campos, celeiros, estruturas de poder. A fatura ecológica vem mais tarde: erosão, salinização, colapso de solos, dependência de rios cada vez mais controlados. Mas, para quem está dentro da bolha, o que fica visível é o aumento de produção e de excedentes.
É este modelo que viaja, de forma mais ou menos disfarçada, ao longo de milénios. Quando chega à Idade Moderna, vem vestido de trigo, vinha, gado e, pouco depois, de monocultura de açúcar, algodão, café. A lógica é a mesma: limpar, nivelar, semear uma coisa só, extrair até ao limite. Se o solo se cansa, abre-se outra frente; se a paisagem se esgota, procura-se outra colónia.
Nas Américas, este pacote encontra uma oportunidade brutal. As doenças trazidas da Europa dizimam populações indígenas, abrindo espaço para uma ocupação à escala continental. Onde antes havia mosaicos de floresta manejada, hortas, pomares e roçados rotativos, instalam-se grandes propriedades voltadas para exportação. Nasce o sistema de plantation, refém de mão de obra escravizada, onde a terra é tratada como depósito de nutrientes e as pessoas como peças substituíveis.
No Brasil, esse processo é quase um laboratório extremo: cana-de-açúcar, depois café, mais tarde soja e gado em massa, sempre o mesmo padrão a repetir-se com pequenas variações. Floresta corta-se, queima-se, semeia-se uma só cultura, extrai-se até o limite, procura-se nova fronteira agrícola. A ideia de que a floresta poderia ser a base de um sistema produtivo de longo prazo nem sequer entra na equação.
Repara no contraste: de um lado, povos que aprendem a prolongar a fertilidade da floresta ao ponto de deixarem, séculos depois, solos antropogénicos ricos em matéria orgânica e carvão, a famosa terra preta. Do outro, uma tradição que se habitua a matar o solo aos poucos, sempre à espera da próxima terra “virgem” para repetir o ciclo.
Não foi por falta de exemplos que ficámos presos a este atalho. Foi por falta de vontade — e por interesse explícito. Um modelo que concentra poder e riqueza em quem controla a terra e a produção é muito mais útil a impérios do que uma teia de agroflorestas comunitárias, pomares diversificados e sistemas alimentares locais. O problema é que esse modelo foi sendo apresentado como a agricultura, o padrão a partir do qual tudo o resto é avaliado.
É precisamente contra este “monopólio de definição” que a conversa sobre agrofloresta de sucessão começa a ganhar importância. Não como mais uma técnica simpática para guardar num nicho, mas como lembrança incômoda de que escolher este caminho foi isso mesmo: uma escolha.
6. Agrofloresta de sucessão: nome moderno para uma prática antiga
Quando se fala hoje de agrofloresta, cabe praticamente tudo dentro da palavra. Desde sistemas altamente técnicos e regenerativos até pomares com meia dúzia de árvores perdidas num campo de herbicida — se houver árvores, alguém já lhe chamou agrofloresta algures.
Por isso é que a expressão agrofloresta de sucessão surgiu como necessidade. Não basta misturar árvores com culturas anuais; importante é como se organiza essa mistura no tempo e no espaço.
A ideia central é simples de dizer e muito exigente de praticar:
em vez de tentar manter o terreno num estado artificialmente fixo (sempre limpo, sempre igual, sempre na mesma cultura), aceitamos que a paisagem está em constante transformação e trabalhamos com essa mudança. Sucessão, aqui, não é só uma palavra de ecólogo; é a base do planeamento.
Numa agrofloresta de sucessão:
pensa-se em camadas (estratos): chão coberto por herbáceas e adubadeiras, arbustos, árvores de médio porte, emergentes que vão puxar o dossel lá para cima;
pensa-se em épocas: espécies de arranque, que crescem rápido, geram biomassa e preparam o microclima; espécies de médio prazo, que ocupam o espaço quando as primeiras começam a sair; espécies de longo prazo, que só se afirmam quando o sistema está mais maduro;
pensa-se em funções: alimento, sombra, matéria orgânica, fixação de azoto, atração de polinizadores, madeira, fibra, raízes profundas que vão buscar nutrientes lá em baixo.
A grande diferença em relação ao pacote agrícola dominante é que, em vez de simplificar a paisagem para produzir mais de uma só coisa, a agrofloresta de sucessão aposta no aumento da complexidade como estratégia de produtividade. Mais estratos, mais espécies, mais relações entre elas. A produtividade deixa de ser medida apenas em sacas de um grão específico e passa a ser vista em termos de fluxo de biomassa, diversidade de colheitas, estabilidade do sistema, saúde do solo.
Se olharmos para trás, vemos isto espalhado nos sistemas indígenas que foram sendo ignorados: florestas enriquecidas com espécies úteis, clareiras usadas em ciclos, consórcios de plantas que se protegem e alimentam mutuamente. A novidade não está na prática em si; está na maneira como começamos a descrevê-la, estudá-la e replicá-la de forma consciente em contextos diferentes.
Chamá-la agrofloresta de sucessão é um gesto político e técnico ao mesmo tempo. Político, porque recoloca no centro a ideia de que a agricultura pode aumentar a complexidade ecológica em vez de a destruir. Técnico, porque obriga a planear plantios, podas, colheitas e substituições à luz dessa dinâmica de sucessão, e não de um calendário fixo de “preparar solo → semear → adubar → colher → repetir”.
Quando um agricultor começa a pensar assim, a pergunta muda.
Deixa de ser “como é que limpo isto para plantar X?” e passa a ser “em que fase de sucessão está este pedaço de terra e que espécies posso introduzir agora para o empurrar um pouco mais para a frente?”.
É este tipo de pergunta que nos aproxima, sem romantismo, daquilo que os povos da floresta já faziam há muito: gerir a abundância em vez de gerir a escassez.
No próximo passo, entra em cena o nome que hoje concentra boa parte desta conversa — Ernst Götsch — e a forma como ele decidiu arrumar tudo isto debaixo de uma expressão que não é apenas agronómica: Agricultura Sintrópica.
7. Agricultura Sintrópica: quando a sucessão ganha um nome próprio
Em algum momento destas últimas décadas, a tal agrofloresta de sucessão ganhou uma tradução muito concreta num pedaço de terra no sul da Bahia, na fazenda Olhos d’Água. Um suíço, formado em genética, muda-se para o Brasil nos anos 80, olha para um solo cansado de cacau e derrube e faz uma pergunta simples, que curiosamente quase ninguém fazia:
e se, em vez de tentarmos adaptar as plantas à pobreza do solo, melhorarmos as condições de vida do lugar em que elas crescem?
É desta pergunta que nasce o trabalho de Ernst Götsch. Ao observar a floresta e replicar os seus padrões em sistemas agrícolas, ele acaba por condensar prática e teoria num nome que hoje corre o mundo: Agricultura Sintrópica.
A palavra pode soar estranha, mas a ideia é direta. Sintropia é o movimento contrário da entropia: onde a entropia aponta para dispersão e perda de estrutura, a sintropia aponta para aumento de organização, de complexidade, de informação. Quando Götsch fala de Agricultura Sintrópica, está a propor uma agricultura que entra nesse movimento de aumento de ordem viva: sistemas que produzem alimento ao mesmo tempo que regeneram solo, água, microclima e biodiversidade.
Na prática, o que ele faz é levar até às últimas consequências aquilo que a agrofloresta de sucessão já insinuava:
pega na sucessão ecológica e transforma-a na coluna vertebral do planeamento;
pega na estratificação e desenha os plantios como quem compõe uma floresta, em camadas;
trata ramos, folhas e podas não como lixo a remover, mas como o principal investimento de longo prazo.
Aqui entra a parte mais especulativa, mas que, para mim, faz sentido dizer em voz alta.
Diria, num ato assumido de especulação, que Ernst sentiu a necessidade de construir uma narrativa que tornasse “palatável” para o olhar ocidental algo que sempre foi óbvio para muitas comunidades indígenas e camponesas: o respeito radical pelos elementos floresta, água, animais, solo.
As populações indígenas, os caboclos, os quilombolas (descendentes de comunidades formadas por pessoas escravizadas fugidas e seus descendentes) e muitos assentados do Movimento dos Sem Terra que optaram por práticas agroflorestais regenerativas para produzir alimento para as suas famílias herdaram, em grande parte, esse enraizamento no respeito pela mãe natureza. A natureza é mãe, não metáfora poética: é do chão que tudo vem, é do equilíbrio do ecossistema que depende a saúde da comunidade. Não é um conceito abstrato; é um acordo de convivência.
Götsch, ao trabalhar com estas pessoas e com estes lugares, terá percebido que essa visão não se traduzia facilmente para o cérebro formatado do colonizador e dos seus descendentes, a massa de população “ocidentalizada” que hoje ocupa grande parte do Brasil, e boa parte da América do Sul. Daí, arrisco eu, a necessidade de dar uma nova roupagem a essa sabedoria: desenvolver uma linguagem mais pedagógica, organizada, que fale de energia, de sintropia, de sucessão, de forma a atravessar o filtro mental de quem não cresceu a entender a floresta como parente.
De certa maneira, a Agricultura Sintrópica é essa tradução: um esforço para converter em “racionalidade aceitável” aquilo que, em muitas culturas indígenas, é vivido como princípio básico, preservar o meio para garantir não só a próxima colheita, mas o bem-estar das próximas gerações. Entre vários povos nativos da América do Norte, fala-se muitas vezes em decidir pensando nas próximas sete gerações. A frase não é de Ernst, mas a filosofia encaixa bem no que ele tentou fazer: criar uma ponte entre esse respeito ancestral e um mundo que desaprendeu a pensar para lá do próximo subsídio ou do próximo ciclo de preços.
Do ponto de vista de quem anda no terreno, a diferença em relação à agricultura orgânica convencional aparece na forma como se olha para os insumos. Na agricultura orgânica, substitui-se o adubo químico por composto, esterco, caldas. Continua a haver, muitas vezes, uma dependência de inputs que vêm de fora. Na Agricultura Sintrópica, o foco está em desenhar sistemas que produzam o próprio adubo: consórcios densos, muito verde a crescer, podas frequentes, chão permanentemente coberto. O sistema alimenta-se a si próprio à medida que avança na sucessão.
No fundo, a Agricultura Sintrópica pega numa prática antiga — produzir em diálogo com a floresta — e oferece-lhe uma gramática nova. Não para apagar as raízes indígenas e camponesas, mas para conseguir falar, também, com quem cresceu a ver o campo como cenário de extração e a floresta como obstáculo. Se for bem usada, essa gramática não substitui as histórias de quem sempre esteve lá; ajuda a amplificá-las.
8. E se D. Manuel tivesse lido a carta de outra maneira?
Voltemos agora ao início, àquela sala imaginária em Lisboa onde D. Manuel recebe a carta de Pêro Vaz de Caminha. Costumamos pensar na cena em termos muito administrativos: o rei lê, toma nota das boas notícias (terra fértil, gente para converter, riqueza potencial), assina uns despachos e segue viagem.
Vamos fazer um pequeno desvio de ficção histórica.
Imagina que, em vez de sublinhar o “achamento” — a posse, a cruz fincada, a nova fronteira — o rei se fixa naquele parágrafo aparentemente secundário:
um povo sem bois, nem vacas, nem cavalos;
gente que se alimenta de raízes, sementes e frutos de árvores;
corpos mais robustos e saudáveis do que os seus próprios súbditos, carregados de trigo e legumes.
Imagina que em vez de ver ali atraso, D. Manuel sente curiosidade. Em vez de mandar missionários e feitores à frente, envia aprendizes. Em vez de procurar sobretudo ouro e madeira, faz uma pergunta estranha para a época:
como é que estas pessoas conseguem viver bem sem destruir a floresta à volta?
É um exercício especulativo, claro. Mas é útil porque expõe a encruzilhada: podíamos ter olhado para o Brasil como colónia de extração — e foi isso que fizemos — ou como escola de regeneração agrícola para um continente esgotado.
Se a segunda hipótese tivesse ganho, a história europeia podia ter sido outra. Em vez de exportarmos o modelo de plantation e o pacote arado-monocultura para o Novo Mundo, podíamos ter importado para cá a lógica da sucessão e da estratificação, adaptando-a aos carvalhais, aos montados, às encostas húmidas e secas da Península. A crise ecológica que já se fazia sentir na Europa em 1500 — desflorestação, erosão, epidemias — talvez tivesse encontrado ali um laboratório de correção de rota.
Não estou a dizer que, com meia dúzia de cartas diferentes, tínhamos evitado o capitalismo fóssil, o agronegócio global e a crise climática. A escala do problema é outra. Mas faz diferença perceber que havia, logo no arranque das “Descobertas”, um outro manual possível pousado em cima da mesa: o manual de povos que sabiam produzir alimento enquanto aumentavam a complexidade do ecossistema local.
Quinhentos anos depois, a pergunta volta, mas ao contrário:
será que, desta vez, conseguimos ler a carta com outros olhos?

9. O regresso tardio: porque é que isto nos diz respeito agora
Se este texto ficasse pela arqueologia da agricultura, era uma curiosidade académica. Mas o que me interessa aqui é o presente: um país a desertificar por dentro, a arder todos os verões, a perder solo, água e gente, enquanto insiste num modelo agrícola que já mostrou, vezes demais, os seus limites.
Portugal é um caso quase didático. Passámos séculos a limpar encostas para pôr gado e cereais. Depois vieram os pinhais e eucaliptais plantados em série. Pelo meio, perdemos boa parte da diversidade de sistemas tradicionais — soutos, lameiros, pomares mistos, hortas de vale — que ainda faziam alguma mediação entre a floresta e a monocultura. Hoje, o mosaico simplificou-se: blocos de floresta industrial, campos nus, manchas de mato abandonado.
No meio deste cenário, falar de agrofloresta de sucessão não é só recuperar uma palavra bonita. É perguntar, com toda a crueza:
quantos hectares de Portugal estamos dispostos a continuar a gerir como se a floresta fosse inimiga?
quanto tempo mais queremos apostar em modelos que dependem de insumos externos caros, de mercados voláteis e de solo tratado como combustível descartável?
Do outro lado, começam a aparecer exemplos, ainda pequenos mas teimosos, de outro caminho: sistemas onde a linha de cultura deixa de ser uma cicatriz num campo lavrado e passa a ser parte de uma composição mais ampla; onde a colheita de hoje é feita a pensar no microclima de amanhã; onde as podas, a sombra e a matéria orgânica são tratadas como património.
É este tipo de experiência que me interessa partilhar a partir da Estação Agroflorestal: sítios onde a sucessão deixa de ser palavrão de ecólogo e passa a ser ferramenta de trabalho diário. Não porque seja moda, mas porque, num clima cada vez mais extremo, é provavelmente a única forma honesta de produzir comida sem destruir a base de onde ela vem.
10. De quem é que escolhemos copiar agora?
Durante 500 anos, copiámos o manual mais agressivo que tínhamos à mão: campos limpos, arado fundo, monoculturas, florestas cortadas “para desenvolver”, pessoas e ecossistemas tratados como variáveis descartáveis. Chamámos a isso agricultura moderna, depois agricultura industrial, agora chamamos-lhe, com algum pudor, “setor agrícola”.
Entretanto, os povos que tinham desenvolvido outras formas de estar na terra foram sendo empurrados para as margens e as suas práticas agrárias seguiram o mesmo caminho. Hoje, quando falamos de agrofloresta de sucessão ou de Agricultura Sintrópica, estamos a tentar reatar esse fio: recuperar um tipo de inteligência ecológica que foi conscientemente desvalorizada e, ao mesmo tempo, traduzi-la numa linguagem que permita trabalhá-la, ensiná-la, replicá-la.
A pergunta que fica para cada um de nós, enquanto agricultores, técnicos, consumidores, vizinhos, é desarmantemente simples:
de quem é que queremos continuar a copiar?
Do pacote arado/monocultura/veneno, que responde a curto prazo mas abre crateras no longo?
Ou do manual, bem mais discreto, de quem aprendeu a fazer da sucessão e da floresta a base do seu sustento?
Não há respostas imediatas nem receitas prontas — e desconfia sempre de quem prometer o contrário. O que há é isto: pedaços de terra onde se experimenta, erros que se acumulam, sucessos que se vão observando e afinando. A Estação Agroflorestal é um desses sítios. Se este texto servir para alguma coisa, que seja para te pôr a olhar para o teu pedaço de mundo — mesmo que seja um quintal urbano — e perguntar:
se eu parasse de tratar este chão como tábua rasa, que sucessão é que já está a tentar acontecer aqui?
A partir daí, a agrofloresta de sucessão deixa de ser teoria brasileira, livro caro ou termo técnico. Passa a ser uma escolha concreta, feita todos os dias, sobre o lado da história ecológica em que queremos estar.









Querido Ricardo. Há anos dou aulas sobre os povos da floresta, e como brasileiro sempre usei a carta de Caminha (ontem dei exatamante essa tarefa a um grupo de alunos no IPSantarém) deve ser lida para ver a cegueira de quem, na floresta, só vê a negação do manejo, da intencionalidade e da manutenção da abundância - de onde decorre a generosidade que permitiu estrangeiros chegarem, como sempre chegavam por dez milenios, e serem recebidos como mais um que chegava numa cornucópia de recursos alimentares e existenciais. Ver um português usar a mesma linha que uso "Eles não lavram nem criam", me deu uma alegria IMENSA. Eles não lavravam... por que para ter abundância isso não é necessário, e não criam, por que faziam seu "gado" se manter por perto sem cercas, pela comida disponível. Hoje, trabalho com etnozootecnia, com as galinhas autóctones portuguesas, e quando cheguei por aqui, e decidi não pressupor, mas observar, me dei conta pela etnografia, que aqui, antes de lá, vivia um povo da floresta, a fagossilva, um povo que não era um, mas vários, que não colonizava, mas ocupava e vivia... até que seus colonizadores romanos, visigodos e mouros levaram com eles a riqueza das matas, e deixaram tudo para que os nobres depois continuassem primeiro colonizando e desmatando (as duas coisas andam juntas) , primeiro seu próprio povo, depois ilhas e outros continentes, navegados em mata destruída e em floresta movida a velas. Bem... estou com sono, minha escrita deve estar confusa, e aqui é o teu espaço... e não o do comentarista, por isso vou parar por aqui... como gostava de o encontrar e conhecer um dia...você, muitas vezes, me cria um dia bom com teus textos... hoje lavou-me a alma. Quem sabe um dia nos achamos...
Muito obrigado Ricardo - mais uma vez parece-me muito bem escrito!
Faz demasiado sentido para que possa ser ignorado - a mudança para a agricultura regenerativa é um imperativo.