A ilusão do biológico: quando a certificação ignora quem trabalha a terra e os ecossistemas
O selo biológico acalma consciências, mas ignora quem cuida do solo, das plantas e dos ecossistemas
Por Ricardo Meireles – 18 de fevereiro de 2025
Muitos de nós acreditamos que a agricultura biológica é a escolha mais sustentável — e, em comparação com a convencional, ela realmente é. No entanto, é preciso ir além do selo verde. A agricultura biológica ainda opera dentro de um modelo que prioriza a produtividade imediata em detrimento da regeneração do solo, dependendo de produtos externos cujos impactos são frequentemente ignorados. Quando olhamos para sistemas como os agroflorestais ou agroecológicos, percebemos que há alternativas que não sacrificam trabalhadores rurais ou ecossistemas. Este texto tenta expor uma contradição: quem é realmente protegido pela certificação biológica, e porque falha em resolver problemas estruturais?
O mito da certificação e o uso do cobre na agricultura biológica
Um dos pilares da agricultura biológica é o uso de produtos “naturais” no controlo de pragas e doenças. Entre eles, destaca-se a calda bordalesa, uma mistura de sulfato de cobre e cal que, desde o século XIX, vem sendo utilizada para combater fungos em vinhas, pomares e hortas. O problema? O cobre não desaparece com um passe de magia só porque vem rotulado como “permitido na agricultura biológica”.
Estudos científicos demonstram que o uso continuado de fungicida baseados no cobre leva à sua acumulação no solo, prejudicando a microbiota e reduzindo a fertilidade da terra (García-Delgado et al., 2019). Uma investigação da Universidade de Wageningen revelou que, em muitas vinhas biológicas aqui na Europa, os níveis de cobre no solo já ultrapassam os limites ambientais recomendados, pondo em risco a qualidade da água subterrânea e a biodiversidade local (Mackie et al., 2012).
E o que dizer dos trabalhadores que aplicam estes produtos? Os consumidores podem sentir-se reconfortados ao saber que os tomates biológicos que compraram na secção privilegiada do supermercado não foram pulverizados com pesticidas sintéticos, mas dificilmente questionam se o agricultor que os cultivou teve de lidar diariamente com exposições repetidas a um metal pesado. Investigadores da Lincoln University, na Nova Zelândia, analisaram pomares de kiwis e descobriram que o cobre afeta gravemente a fauna do solo, comprometendo os organismos responsáveis pela sua regeneração natural (Komárek et al., 2010).
A exposição permanente ao cobre na agricultura biológica representa um risco invisível para a saúde dos trabalhadores rurais. Produtos como a calda bordalesa, embora permitidos na certificação biológica, contêm sulfato de cobre — um metal pesado cuja manipulação frequente pode levar a intoxicações agudas e crónicas. Estudos revistos por pares demonstram que a absorção cutânea ou por inalação do cobre está associada a danos hepáticos, distúrbios neurológicos e irritações respiratórias. Por exemplo, uma pesquisa publicada no Journal of Agricultural and Food Chemistry (2023) analisou trabalhadores de vinhas biodinâmicas na Europa e identificou níveis elevados de cobre no sangue em 38% dos participantes, correlacionados com sintomas como fadiga extrema e alterações cognitivas. Além disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o cobre como um contaminante de preocupação ocupacional quando acumulado no organismo, especialmente em atividades que envolvem pulverização sem equipamento de proteção adequado.
A falta de regulamentação específica para produtos considerados “naturais” na agricultura biológica agrava ainda mais o problema. Enquanto os pesticidas sintéticos passam por avaliações rigorosas de toxicidade antes de serem aprovados, os fungicidas à base de cobre, como a calda bordalesa, frequentemente escapam a esse nível de fiscalização. Isso ocorre porque há uma percepção generalizada de que produtos rotulados como “biológicos” são inerentemente seguros, o que nem sempre corresponde à realidade. Como resultado, os trabalhadores rurais e vizinhos de explorações agrícolas em MPB, muitas vezes desprovidos de informações adequadas e equipamentos de proteção, acabam expostos a riscos significativos à saúde. Essa dinâmica revela uma contradição no sistema: a busca por uma imagem de sustentabilidade e segurança para o consumidor acaba por negligenciar aqueles que estão na linha de frente do cultivo, expondo-os a condições que podem comprometer seu bem-estar a longo prazo.
Os efeitos no solo e nos ecossistemas: um risco ignorado
Os impactos negativos do uso prolongado de cobre vão além dos trabalhadores e vizinhos dos pomares e da contaminação do solo. Como destacou a agrónoma Ana Maria Primavesi, a aplicação recorrente de defensivos minerais—sejam sintéticos ou considerados biológicos, como a calda bordalesa—desequilibra os minerais no solo, tornando as plantas mais vulneráveis a pragas e doenças. Em 2019, Primavesi alertava que “a aplicação rotineira de algum defensivo com base mineral, químico de síntese ou não, como a calda bordalesa, acarreta sempre o excesso de um mineral e a deficiência de outros. Isso, infalivelmente, provoca o ataque de algum parasita” (Primavesi, 2019).
A fruticultura em Portugal tem registado um crescimento galopante nas últimas décadas, com destaque para os investimntos em abacate, maçã, pêra, citrinos os frutos vermelhos. Para assegurar uma produção eficiente no modo de produção biológico, é comum recorrer a tratamentos fitossanitários, especialmente fungicidas à base de cobre, para combater doenças geradas pela inadaptação das plantas às condições locais.
Muitas destas plantas são cultivadas em ambientes diferentes dos seus habitats originais, o que pode enfraquecê-las e torná-las mais suscetíveis ao que se convencionou chamar pragas. Primavesi observou que “o stress da planta é proveniente dos obstáculos de temperaturas como falta de exposição ao sol e temperaturas baixas e altas; stress de quantidade de água; más condições climáticas que vêm do excesso de humidade, insuficiência ou excesso de nutrientes, ventanias, geadas e outros.” Este stress pode resultar em plantas mais vulneráveis, exigindo um uso ainda maior de tratamentos fitossanitários.
O problema ganha ainda maior dimensão quando olhamos para os sistemas agroflorestais e outros modelos agroecológicos, que dependem da biodiversidade do solo e da ciclagem de nutrientes para se manterem produtivos a longo prazo. O uso excessivo de cobre e outros metais pesados nas envolventes a esses projetos afeta diretamente a microbiologia do solo, eliminando organismos essenciais para a decomposição da matéria orgânica e a disponibilização de nutrientes para as plantas. Isso pode prejudicar tanto a regeneração natural dos ecossistemas quanto o equilíbrio das espécies num desenho agroflorestal. Ou seja, em vez de favorecer sistemas resilientes, a agricultura biológica, da forma como é muitas vezes praticada, pode estar a criar novos problemas ambientais.


Afinal, quem ganha com a certificação biológica?
A grande questão que fica é: para quem serve realmente a certificação biológica? Quem está a ser protegido? Quem é o verdadeiro beneficiário desta etiqueta? Porque se preocupa mais com o consumidor do que com o trabalhador rural ou os vizinhos que veem os seus terrenos contaminados sem se aperceberem disso a tempo?
Apesar dos seus méritos, a Agricultura Biológica ainda opera dentro de um modelo extrativista. A cada ciclo produtivo, é necessário aportar mais energia ao sistema — seja na forma de fungicidas como a calda bordalesa, adubos orgânicos ou correções minerais — para manter a mesma produtividade. Isso ocorre porque, embora evite produtos sintéticos, a agricultura biológica não regenera o solo de forma efetiva. Em vez de criar um ecossistema autossustentável, ela depende de intervenções constantes para compensar a degradação gradual do solo.
A solução pode passar por repensar profundamente os princípios da agricultura biológica. Se queremos uma verdadeira alternativa à agricultura industrial, não basta proibir produtos sintéticos e substituí-los por versões “naturais” que podem ser igualmente prejudiciais. Precisamos de um modelo agrícola que olhe para a saúde do solo, a biodiversidade e a regeneração ecológica como elementos centrais, e não apenas para o conforto de um selo de certificação que tranquiliza consciências, mas ignora realidades.
Enquanto isso não acontecer, continuaremos a vender uma ilusão verde – boa para o marketing e o greenwashing, mas não necessariamente boa para o solo e para quem o trabalha.
Referências
García-Delgado, M., et al. (2019). “Long-term effects of copper-based fungicide applications on soil copper fractionation and bacterial community structure.” Science of The Total Environment, 660, 600-608.
Mackie, K. A., et al. (2012). “Long-term copper application in an organic vineyard modifies spatial distribution of soil micro-organisms.” Soil Biology and Biochemistry, 49, 70-79.
Komárek, M., et al. (2010). “Copper contamination of vineyard soils from small wine producers: a case study from the Czech Republic.” Geoderma, 147(1-2), 16-22.
Primavesi, A. M. (2019). “Trofobiose e Efeitos dos Agrotóxicos e adubos concentrados sobre as plantas.” Disponível em: https://anamariaprimavesi.com.br





