A caça às espécies invasoras (ou Quem Invadiu o Quê?)
As espécies invasoras em Portugal podem ter papel vital na recuperação do solo, se usadas com espécies autóctones. A sua integração estratégica pode acelerar a restauração da floresta
Por: Ricardo Meireles
Na nossa busca por preservar e recuperar os ecossistemas em Portugal, surge a questão: “Quem invadiu o quê?”. Esta interrogação convida-nos a questionar preconceitos e a explorar um caminho menos convencional. Afinal, será que as espécies invasoras, como o eucalipto, as mimosas e as austrálias, que frequentemente rotulamos como inimigas da biodiversidade, podem, na realidade, desempenhar um papel crucial na recuperação ecológica do solo? Vamos lançar-nos nesta reflexão, conscientes de que não estamos a oferecer respostas definitivas, mas sim a promover um diálogo sobre como a nossa relação com estas plantas exóticas pode moldar o futuro dos nossos solos e ecossistemas.
A verdadeira espécie invasora
Hoje, quando falamos de espécies invasoras como o eucalipto, as mimosas ou as austrálias, partimos do princípio de que as mesmas chegaram, dominaram o terreno e, pela competição, expulsaram as espécies autóctones. Mas, analisando melhor a história, antes de estas aparecerem, outra espécie invasora por ali passou – o ser humano – e criou condições de degradação do solo por meio de diversas práticas.
Míseros centímetros de solo vivo e saudável que métodos ancestrais de limpezas de matos para a pecuária e agricultura deixaram de herança. Expansão da monocultura de árvores com fortes interesses corporativos. Agricultura predadora de espécies anuais que eliminam tudo para nascer só a espécie almejada. Um ódio generalizado da população à vegetação que logo resultam em julgamentos sumários – Não dá fruto, foice nela – como diz o povo. A queda da folha suja o terraço, liga-se para a autarquia e pede-se o abate do choupo. É preciso limpar o terreno para atrair um comprador, manda-se terraplanar e espera-se décadas até construir. Essas ações impulsivas de destruição da vegetação, frequentemente motivadas por interesses imediatos e pela aversão à natureza, contribuíram para um cenário de degradação do solo, deixando-o para lá da sua capacidade de resiliência.


Grande parte do solo nacional é ou já foi alvo de alguma das ações descritas no parágrafo anterior. Perante este cenário de guerra entre ser humano e ecossistema, não será o carvalho, o sobreiro, ou outras espécies autóctones que sozinhas conseguirão regenerar a terra e trazê-la para os níveis de fertilidade originais. Tal até seria possível, se parássemos hoje a nossa ação e esperássemos mais alguns séculos. Sabemos, no entanto, que já não temos esse tempo para reverter o processo degenerativo em curso.
Onde depositar a nossa esperança?
A esperança pode residir na eficiência dessas árvores que apelidamos de espécies invasoras e cuja capacidade de captação de nutrientes é muito mais eficaz que a da vegetação nativa. São autênticas máquinas de bombear água e nutrientes de horizontes do solo onde só elas conseguem chegar. Ao trazer toda essa energia para a superfície, criarão uma camada de fertilidade a um ritmo que nos permite ter outra perspetiva de recuperação e aí sim, dar força para o desenvolvimento de espécies autóctones que todos queremos ver um dia a dominar o território.

Se entrarmos num espaço florestal estratificado, maduro e com um solo fértil, podemos lançar por lá as sementes de todas as “espécies invasoras” que conseguirmos e veremos ao longo dos anos que nenhuma delas terá dominado o ambiente ou mesmo germinado, a não ser que se tenha aberto uma clareira com o derrube de árvores autóctones e se tenha degradado o solo levando toda essa biomassa para fora do sistema.

Será viável usar eucaliptos e outras árvores de crescimento rápido para regenerar os solos?
Sim, se respeitarmos a biodiversidade, se juntamente forem plantadas e semeadas espécies autóctones e se planearmos essa intervenção tendo em conta o espaço (estratificação) e o tempo (ciclo vegetativo) de cada espécie e se aproveitarmos a dinâmica da sucessão ecológica, desde a colonização até ao clímax. É neste contexto que a agrofloresta de sucessão e o conceito de agricultura sintrópica criado por Ernst Götsch pode inovar e contribuir para uma evolução na prática ecológica.

O eucalipto e outras espécies vegetais não nativas podem ajudar a salvar o solo em Portugal se forem manejados por meio de podas ou cortes atempados, se com elas forem plantadas e semeadas plantas anuais que, em conjunto, criarão uma dinâmica de vida e crescimento, se a determinada altura incorporarmos a biomassa triturada para criar uma camada enriquecida de matéria orgânica que torne possível uma rápida regeneração através da cobertura constante do solo.
E qual é o outro lado da moeda?
Se, ao invés dessa prática, perpetuarmos a monocultura e os proveitos forem totalmente retirados do ecossistema para alimentar as indústrias que dele dependem, pode significar a catástrofe ecológica de um país que há muito expulsou a floresta do seu território.

A diferença entre o remédio e o veneno é a dose, ou neste caso, o método usado ou a sua finalidade.
Ao utilizarmos a maioria da floresta como um simples ativo económico, mantemos uma indústria de extração de recursos de solo que deveriam estar disponíveis para as próximas gerações. Estamos a utilizar o “cartão de crédito energético” dos nossos filhos e netos para alimentar um sistema que não temos coragem de desmantelar. A fatura, essa chegará e será bem pesada para eles.
Por sua vez, se apostarmos nas espécies de crescimento rápido, as ditas espécies invasoras, para abrirem caminho à instalação de uma floresta madura e maioritariamente autóctone (que todos queremos um dia ver a dominar), elas irão criar um atalho na evolução que demoraria centenas de anos a acontecer.
É este propósito que os movimentos ecologistas tradicionais e as instituições não entenderam ainda. Criar listas maniqueístas de espécies vegetais, classificando-as de boas ou más, sem ter em conta o contexto em que elas crescem e o serviço ecológico que podem prestar, é uma atitude preconceituosa. Não há tempo para esperar que as espécies autóctones trabalhem sozinhas e não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar a eficácia de espécies competentes e generosas na regeneração dos ecossistemas.


